Diário de um Portfólio de Robôs (6): O Drawdown que Te Quebra é o das Posições Abertas

O drawdown que estoura a margem não é o dos trades fechados, é o das posições abertas. Medi: o pior saldo aberto foi −1.043, em janeiro de 2026, não na crise do iene. E a folga de 30% é ilusão de era calma.

Atualizado em 07/08/2026

Direto ao ponto. O relatório do backtest só conta trade fechado. Quem estoura a margem é o saldo flutuante de todas as posições abertas ao mesmo tempo, que é outra série, com outro fundo. Eu medi. O saldo aberto do conjunto inteiro de robôs candidatos passava de 3.000 dólares no pior momento, mais de quatro vezes o meu teto de risco. E o pior dia caiu em janeiro de 2026, num período sem manchete nenhuma. É esse drawdown em aberto que decide quantos robôs cabem na conta.

O capítulo anterior foi sobre um número que estava errado por causa de um bug. Este é sobre um risco que eu media no lugar errado. A conta batia. O problema era a coisa que ela media, e essa diferença quase ninguém olha, até a margem apertar.

O relatório conta os fechados, a margem morre nos abertos

Todo relatório de backtest mostra o drawdown dos trades fechados, que você levanta somando o resultado das operações já terminadas e olhando a maior queda dessa curva. Esse é o risco contado depois que a operação já morreu. A margem morre antes. Um portfólio de robôs, ainda mais com grid, carrega muitas posições abertas ao mesmo tempo, e enquanto nenhuma delas fecha o resultado fechado fica parado. Bonito, inclusive. Só que a soma do que está aberto pode estar fundo no vermelho naquele mesmo instante. É essa soma que a corretora olha para calcular margem, e é ela que encosta no meu teto de risco.

Foi o ponto que mudou a forma como eu seleciono robô, porque a pergunta deixou de ser se os resultados fechados de dois robôs são descorrelacionados. Passou a ser se o saldo aberto deles se compensa. São duas medidas diferentes. Dois robôs podem ter resultado fechado totalmente decorrelacionado e ainda assim ficar os dois no vermelho em aberto no mesmo dia, que é exatamente quando a margem estoura, e por isso o que eu quero no portfólio são robôs cujo flutuante de um segura o flutuante do outro.

Como eu medi o flutuante, e os erros no caminho

Para medir isso eu marquei, dia a dia, cada posição aberta a preço de mercado, e o saldo flutuante do portfólio num dia é a soma de todas elas:

F_t = \sum_{i\,\in\,\text{abertas}(t)} (P_t - P_{e,i})\,\cdot\,v_i\,\cdot\,m_i

Cada posição aberta i contribui com a diferença entre o preço de marcação do dia (P_t) e o preço de entrada dela (P_{e,i}), vezes o volume (v_i) e o valor do pip (m_i, que é 100.000 para os pares cotados em dólar e 100.000 dividido pelo preço para os pares contra o dólar). O drawdown em aberto é o pior vale dessa série ao longo do tempo:

\mathrm{DD}_{\text{aberto}} = -\min_{t}\;F_t

Simples no papel. Na prática, três erros me ensinaram que a conta tem armadilha em cada etapa, e os três distorciam o risco para cima:

  • O lado das operações vinha invertido em 54 mil trades, porque o dado dizia “Compra” e “Venda” em português e o meu código lia em inglês. Detalhe de idioma. Trocava o sinal de tudo.
  • Casar as ordens por ordem de chegada (FIFO) dava 65% de erro até no EURUSD, porque o MT5 fecha posição por ticket, na ordem que o robô mandar. Tive que reconstruir o preço de entrada de cada posição a partir do lucro dela, do lado, do lote e do valor do pip. Para provar que a reconstrução estava certa, comparei a entrada reconstruída com a entrada real registrada: bateu em 0,0000%, e os dois caminhos são independentes, porque um parte do lucro registrado e o outro parte do preço gravado na ordem. Zero cravado nas quatro casas.
  • Marcar cada robô no seu próprio pior preço ao mesmo tempo é fisicamente impossível: seria um comprado no fundo do dia e um vendido no topo, no mesmo instante, e corrigir isso para um preço por par derrubou o pior saldo aberto de −1.569 para −1.043 dólares.

Teve ainda uma sutileza que parece pedantismo. Não é. O saldo aberto tem que ser medido em valor bruto, porque a posição ainda não fechou e a corretora ainda não cobrou a comissão. O resultado fechado, esse sim, sai líquido. Quando eu validei a máquina nos robôs de tendência, sobrou um resíduo de 4,1%, e ele era exatamente a comissão: o Profit fechado já vinha líquido e o flutuante vinha bruto. O aberto se mede bruto. Validei tudo com 30 testes de unidade com valores na mão, incluindo o que prova a correção mais importante: um hedge comprado e vendido no mesmo tamanho tem que dar exatamente zero de flutuante.

O grid é uma curva suave pontuada por buracos

O vilão do risco em aberto tem nome, o grid, que por construção abre posições e segura, somando ordens enquanto espera o preço voltar. Enquanto ele segura, nada fecha. O resultado fechado fica parado e bonito, e o saldo aberto vai afundando em silêncio. Um dos meus grids, o CAD-M4b, teve 89 dias de ganho, somando cerca de +511 dólares, contra apenas 10 dias de perda, de −139 no total. Nos fechados ele parece perfeito. É justamente essa suavidade que esconde o buraco, porque o risco dele mora nos poucos dias em que a posição aberta vai fundo, e esses dias nunca aparecem na curva de fechados.

Na medição, o flutuante dos grids chega a algumas centenas de dólares no pior dia, bem acima do que os robôs de tendência marcam. Por isso o grid manda no drawdown em aberto do portfólio inteiro, e a pesquisa acadêmica chega ao mesmo lugar por outro caminho. Taranto (2022) descreve o grid como uma estratégia “estruturalmente sobrevivível, mas não segura”: uma curva de capital suave, pontuada por picos catastróficos, em que o último pico pode zerar a conta. Medir o flutuante antecipa esse pico.

O pior dia não foi o que todo mundo achava

Quando rodei a série inteira, o resultado contrariou a intuição, a minha inclusive, porque eu esperava que o pior saldo em aberto estivesse no carry-unwind do iene, em agosto de 2024, o evento de cauda mais famoso do período. Não foi lá. Naquele episódio o pior aberto ficou em cerca de −680 dólares, e o fundo de verdade, −1.043, veio quase um ano e meio depois, em janeiro de 2026, num período sem manchete nenhuma.

Saldo flutuante diario do portfolio 2024 a 2026, pior dia menos 1.043 em janeiro de 2026

Essa lição vale além do meu portfólio. O risco de cauda nem sempre mora onde está a crise óbvia, e ancorar a defesa no único evento dramático que você lembra deixa o flanco aberto, porque o pior pode vir de um acúmulo silencioso de posições na mesma direção, sem nenhum estopim espetacular. Foi exatamente aí que a IA externa que me ajudou na auditoria errou. Ela supôs o iene. O dado mostrou um mês comum. O número que governa a margem é o saldo aberto, e ele tem vida própria, descolada das crises que viram notícia.

O que eu quero é saldo aberto que se compensa

Aqui está a parte que de fato move a seleção, porque o ideal é juntar robôs cujo saldo aberto se cobre. Imagine um grid com −200 dólares em aberto exatamente enquanto um robô de tendência está com +170 em aberto: o impacto real na margem naquele instante cai para −30. É essa compensação ao longo do tempo que eu quero maximizar. No meu portfólio, o pior saldo aberto do grid sozinho foi cerca de −892 dólares e o do conjunto de tendência ficou perto de −604, então dois fundos no mesmo dia dariam −1.496. O combinado real foi −1.043. Eles nem sempre afundam juntos, e essa diferença de cerca de 30% é a compensação do flutuante.

Pior saldo aberto: grid menos 892 mais tendencia menos 604, combinado real menos 1.043

Repare na diferença para o capítulo dois. Lá eu olhava a correlação dos resultados fechados. Aqui pesa a correlação do saldo aberto, que é outra série e dá outro número, porque dois robôs podem fechar resultados decorrelacionados e mesmo assim ficar os dois no vermelho aberto ao mesmo tempo. A seleção certa olha o flutuante simultâneo.

A folga de 30% é uma ilusão de era calma

Agora a parte honesta, que é grande o suficiente para mudar a conclusão: essa compensação de 30% foi medida numa janela calma, então fui checar se ela era hedge de verdade ou sorte de calendário. Medi a correlação diária entre o flutuante do grid e o flutuante dos robôs de tendência. Deu +0,06. Praticamente zero, ou seja, nunca houve hedge nenhum entre as duas pernas, e os 30% de folga apareceram porque, naquela janela específica, elas não bateram o fundo nos mesmos dias. Foi coincidência de calendário.

E calendário não se sustenta num co-crash. Quando o mercado vira de verdade, tudo desce junto, a correlação sobe para perto de um e a compensação evapora. Somando as pernas com correlação igual a um, o pior caso vai para perto de −2.400, e somando os piores dias de cada perna pode passar de −3.800. Por isso eu não dimensiono o teto de risco pelos −1.043 da era calma. Dimensiono contra o co-crash. A folga de calendário entra como bônus quando aparece, e o teto continua de pé sem ela.

Era calma menos 1.043 contra co-crash menos 2.400, ambos furam o teto de menos 700

Por que eu não dimensiono pelo pior dia

Um cuidado de método. O pior ponto da série é um único dia, e otimizar em cima de um único dia é ajustar a um ponto que pode ter sido só azar, o mesmo erro de usar o drawdown máximo que eu critiquei no capítulo dois. Então eu não seleciono robô para minimizar o pior dia, olho a distribuição inteira do saldo flutuante e a compensação dela ao longo do tempo, que na série diária ficou assim: na mediana, −136 dólares; no percentil 95, −582; no percentil 99, −804. O pior ponto, −1.043, entra como checagem de restrição com folga, porque o que eu ainda não vi, um 2008 ou um 2020, é mais fundo do que tudo isso.

O que isso mudou na montagem, e o próximo capítulo

Quando eu somei o saldo aberto do conjunto inteiro de robôs candidatos, ele passava de 3.000 dólares no pior momento, contra um teto de risco bem menor. Isso virou a restrição que de fato manda na montagem, porque quem decide quantos robôs cabem é o drawdown em aberto simultâneo. E o número certo de olhar é a conta inteira, realizado mais flutuante numa curva só, que é o que a corretora enxerga. Se eu perco 100 dólares em trades fechados e fico com 600 de prejuízo flutuante ao mesmo tempo, a conta está em −700 e a margem quebra, mesmo que cada parte sozinha parecesse suportável. É a soma que quebra. A partir daqui, a montagem passou a ser feita em cima desse número. No próximo capítulo eu mostro a metodologia inteira, a esteira, que pega uma leva grande de robôs e entrega o portfólio final cabendo nesse teto, sem seleção a dedo.

Acompanhe a série para não perder. O próximo sai em poucos dias.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre drawdown fechado e aberto?

O drawdown fechado é a maior queda da curva de trades já encerrados, que é o que o relatório de backtest mostra, e o drawdown em aberto é a maior queda da soma das posições ainda abertas, marcadas a mercado. Quem consome margem e pode quebrar a conta é o aberto, mesmo com o resultado fechado positivo, porque a corretora olha a conta inteira, realizado mais flutuante.

Por que o grid domina o risco em aberto?

Porque o grid abre posições e segura, somando ordens enquanto espera o preço voltar, e nesse meio-tempo nada fecha, então a curva de fechados fica suave enquanto o saldo aberto afunda em silêncio. Um dos meus grids teve 89 dias de ganho contra 10 de perda e ainda assim carregava o maior risco em aberto do portfólio, que é a curva suave pontuada por buracos descrita na literatura de grid.

O que é a compensação do flutuante, e dá para confiar nela?

É o quanto o saldo aberto de robôs diferentes se cobre ao longo do tempo, porque nem sempre afundam no mesmo dia. No meu portfólio valeu cerca de 30%. Só que a correlação diária entre os flutuantes ficou em +0,06, então essa folga veio do calendário e nunca existiu hedge estrutural entre as pernas. Num co-crash a correlação sobe para perto de um e a folga evapora, por isso o teto de risco é dimensionado contra o co-crash.

O pior dia define o teto de risco?

Não. O pior dia é um único ponto, e otimizar nele é ajustar ao acaso. O certo é olhar a distribuição inteira do saldo flutuante, como o percentil 95, e a compensação ao longo do tempo, tratando o pior ponto apenas como checagem de restrição com folga, já que o evento ainda não visto costuma ser mais fundo.

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Quem escreve: Flávio Araújo

Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube

Flávio Araújo
Flávio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

Artigos: 183