Diário de um Portfólio de Robôs (16): O Payroll Levou 92 Dólares, e 73 Estavam em Aberto

Na sexta do payroll o portfólio devolveu 92,09 dólares, e 73,23 deles estavam em posição aberta. O primeiro balanço da era n=54, com o número que decide margem.

Direto ao ponto. Na sexta-feira 7 de agosto de 2026, dia do relatório de emprego americano, o portfólio marcou 117,29 dólares de resultado total às 8h, o maior número da era n=54. Às 9h58 marcava 25,20. A queda foi de 92,09 dólares, e 73,23 dela, ou 79,5%, estava em posição aberta. Todos os robôs rodam lote mínimo de 0,01 sobre uma base de 9.866,82 dólares, então aquele pico valia 1,19% da conta e o tombo do dia valia 0,93%. Nenhum robô estourou o próprio teto e o disjuntor não disparou.

A sexta-feira 7 de agosto de 2026 pegou o portfólio da era n=54 com o maior lucro que ele tinha acumulado até ali, e às 8h da manhã o livro marcava 117,29 dólares de resultado total, somando o que já estava fechado com o que ainda estava em posição aberta. Às 9h30 saiu o payroll, o relatório mensal de emprego dos Estados Unidos. Vinte e oito minutos depois o mesmo livro marcava 25,20.

O que interessa está na decomposição desse tombo. Dos 92,09 dólares que saíram entre o pico e o fundo do dia, 73,23 estavam em posição aberta e 18,86 eram resultado já fechado, ou seja, quase 80% do que doeu naquela manhã era lucro que ainda não tinha virado dinheiro na conta. É a tese do capítulo seis acontecendo ao vivo, num dia com hora marcada.

A era n=54 e o que ela vinha fazendo até aquela sexta

A era começou em 14 de julho de 2026, quando o portfólio foi re-ancorado depois de um conserto de composição, com saldo-base de 9.866,82 dólares numa conta simulada. De lá até 7 de agosto o livro registrou 511 negócios, lançados por 56 robôs diferentes, que são 51 dos 54 hoje no ar mais 5 de composições anteriores que ainda tinham posição para encerrar, tudo em quatro pares de moedas: euro contra dólar, libra contra dólar, dólar contra dólar canadense e dólar contra iene. Este é o primeiro balanço da era, feito com o registro do monitor e o livro de negócios da conta.

Antes que qualquer número faça sentido, uma âncora de escala. Todos os robôs rodam lote de 0,01, o mínimo que a corretora aceita, e isso é escolha de projeto, então o pico de 117,29 dólares vale 1,19% da conta, os 30,04 dólares em que o livro estava no domingo seguinte valem 0,30% e a queda de 92,09 dólares da sexta vale 0,93%. Quem lê “92 dólares” e imagina um estrago está lendo na escala errada. É menos de um por cento de uma conta que existe para testar o método antes do dinheiro real.

A sexta-feira, hora a hora

O payroll sai na primeira sexta-feira de cada mês, às 8h30 de Nova York, que naquele dia era 9h30 em Brasília, e é o dado macro que mais mexe com o câmbio em janela curta, medido assim desde pelo menos 2003, quando Andersen e coautores cronometraram a reação do preço a anúncios macro em janelas de cinco minutos. Nada disso é surpresa. O calendário é público e nenhum robô do portfólio tem filtro de notícia.

O dia começou bem. À meia-noite o total estava em 111,50 dólares, com 19,46 fechados e 92,04 em aberto, e às 6h já subia para 116,30. Às 8h bateu 117,29, o maior valor que a era tinha marcado, e nessa altura 96,10 dos 117,29 estavam em posição aberta. Aí o dado saiu.

O retrato das 9h31 ainda mostrava 111,06 e enganava. O estrago veio nos vinte e sete minutos seguintes: às 9h58 o livro marcava 25,20, o que dá 85,86 dólares evaporados nesse intervalo. Depois disso o mercado devolveu um pouco, e às 12h02 o total estava em 45,70, até fechar o dia às 19h em 38,87, com o resultado fechado em 0,02 negativo e 38,89 ainda pendurados em posição aberta.

Curva do resultado total do portfolio em 7 de agosto de 2026, com pico de 117,29 dolares as 8h e fundo de 25,20 as 9h58, depois do payroll das 9h30

Onde o tombo estava, e por que isso importa mais que o tamanho dele

A conta do dia é uma soma de duas parcelas, \Delta_{total} = \Delta_{fechado} + \Delta_{aberto}. A primeira é o que os robôs realizaram encerrando negócio, dinheiro que entra ou sai do saldo na hora em que a ordem executa, e a segunda é o que o mercado tirou das posições que continuavam abertas, que só encosta no saldo quando aquela posição fechar. Do pico das 8h ao fundo das 9h58, a primeira parcela valeu 18,86 dólares e a segunda valeu 73,23.

O capítulo seis defendeu isso no papel, com a série histórica na mão: o relatório de backtest só conta negócio fechado, a margem morre no saldo flutuante de tudo que está aberto ao mesmo tempo, e por isso o número que decide quantos robôs cabem numa conta é o segundo. Lá o pior saldo aberto do conjunto candidato deu 1.043 dólares negativos, num janeiro sem manchete nenhuma. Aqui apareceu com hora marcada. E a proporção repetiu o argumento quase exatamente, com 79,5% do movimento do lado que o relatório de backtest não mostra.

Decomposicao da queda de 92,09 dolares do dia: 73,23 em posicao aberta, ou 79,5 por cento, contra 18,86 de resultado ja fechado

Uma diferença importante, para não dramatizar. O que caiu ali era lucro em aberto sendo devolvido, e em nenhum momento da sexta o total ficou negativo. O teto do conjunto ficou intocado. Nenhum robô atingiu o teto de drawdown que herdou do Monte Carlo, e o disjuntor que troca robô estourado ficou parado porque não tinha o que trocar.

Os dois grupos de robôs reagiram ao contrário um do outro

O portfólio no ar tem 54 robôs divididos em dois grupos que não fazem a mesma coisa. Quinze são grids, todos de reversão, distribuídos em 7 no dólar contra iene, 4 no dólar contra dólar canadense, 3 na libra e 1 no euro. Os outros 39 saíram da esteira de geração e seleção que virou o capítulo sete, são todos de tendência, e ficam em 12 na libra, 12 no canadense, 9 no euro e 6 no iene, com o mesmo lote de 0,01 dos grids.

A diferença está no regime de mercado que cada um cobra. O grid abre posição e segura, somando ordens enquanto espera o preço voltar para dentro de uma faixa, então ele ganha quando o mercado vai e volta, enquanto o robô de tendência entra a favor de um movimento e precisa que esse movimento continue. São comportamentos opostos por construção. E essa oposição é o motivo de os dois estarem na mesma conta.

Na era inteira, de 14 de julho a 7 de agosto, o grupo de grids fechou 123,32 dólares positivos em 184 negócios, enquanto o grupo de tendência fechou 156,82 negativos em 321 negócios. Somando mais 6 negócios dos robôs de composições anteriores, que renderam 2,31 positivos, o realizado da era fecha em 31,19 dólares negativos.

No dia do payroll a divisão se repetiu, mais concentrada. O grupo de grids fechou 14,40 dólares positivo, em 10 negócios, e o grupo de tendência fechou 33,70 negativo, em 21. O que sustentou o grid naquele dia mora num par só: o dólar contra iene rendeu 12,61 dólares para o grupo, contra 1,88 do canadense e perdas de centavos na libra e no euro. Já o grupo de tendência perdeu nos quatro pares ao mesmo tempo, com 10,39 no canadense, 8,48 no euro, 8,02 no iene e 6,81 na libra.

A leitura errada aqui seria concluir que grid é melhor que robô de tendência, que é o mesmo erro que esta série combate desde o capítulo dois, eleger o que ganhou na janela que você acabou de olhar. Um período em que um comportamento paga e o outro apanha é a prova de que os dois carregam fatores de risco diferentes, e é essa independência medida no resultado que os põe juntos. No capítulo três o dólar contra iene foi o vilão da história, e agora foi ele que segurou o grid no dia mais feio da era. Quando o regime virar, a conta inverte de lado.

O que eu troquei depois daquela sexta

Nada mudou na composição, e vale dizer por quê, porque “não mexer” costuma ser preguiça vestida de disciplina. As condições que autorizam uma troca no meu método são objetivas e nenhuma foi atingida: nenhum robô furou o teto de drawdown que o Monte Carlo definiu para ele, e o teto do portfólio inteiro não foi encostado em nenhum momento do dia. Sem gatilho, sem troca.

Existe uma tentação óbvia depois de um dia desses, que é abrir os parâmetros e reotimizar os robôs que mais perderam. Eu não faço isso, e a razão está no mecanismo: um robô que muda de sinal quando você mexe num parâmetro estava ajustado ao passado, e reotimizar logo depois de um evento ruim significa ajustar ao evento que acabou de acontecer, que é a mesma doença com data mais recente. Por isso o meu controle é teto de drawdown com troca, e não reotimização periódica. O teto foi fixado antes, medido no Monte Carlo de cada robô, e não se move quando o mercado me contraria.

Mudou a minha leitura do painel. Eu olhava o total, e passei a olhar primeiro a divisão entre realizado e flutuante, porque o total sozinho esconde qual dos dois sustenta o resultado.

O que segura o livro hoje é lucro que ainda não virou dinheiro

Aqui está a parte desconfortável deste balanço, e ela amarra o capítulo inteiro. O resultado realizado da era n=54, somando os 511 negócios de 14 de julho a 7 de agosto, está em 31,19 dólares negativos, e o que deixa o livro positivo é a posição em aberto. No retrato de 9 de agosto, dois dias depois do payroll, o total marcava 30,04 dólares, sendo 0,02 negativos de realizado e 30,06 positivos de flutuante.

Ou seja, todo o azul do portfólio mora hoje na coluna que o payroll atacou, a mesma que caiu 73,23 dólares em vinte e sete minutos naquela sexta. Um lucro em aberto só vira saldo quando a posição fecha. Até lá ele é reversível a cada tick, e um dado macro de manhã basta para revertê-lo.

Do pico de 117,29 dólares até os 30,04 de 9 de agosto, o livro devolveu 87,25 dólares, ou 74,4% do que tinha acumulado no melhor momento. Escrito assim, assusta. Escrito na escala da conta, é a distância entre estar 1,19% acima da base e estar 0,30% acima dela, acima nos dois casos, na mesma conta simulada de 9.866,82 dólares.

O que eu ainda não sei

A compensação entre os dois grupos funcionou naquele dia e eu não sei se ela funciona num evento maior. Quando medi isso no capítulo seis, a correlação diária entre o saldo em aberto dos grids e o dos robôs de tendência deu 0,06 positivo, praticamente zero, e a conclusão de lá continua valendo: as duas pernas apenas não bateram o fundo nos mesmos dias daquela janela, o que é coincidência de calendário, já que proteção construída apareceria como correlação negativa.

Num co-crash, quando tudo desce junto e a correlação sobe para perto de um, essa folga evapora. O payroll de 7 de agosto não chegou perto disso. Foi um susto de vinte e sete minutos numa manhã, com o grupo de reversão ganhando enquanto o de tendência apanhava. O teste sério ainda não veio.

A outra coisa que eu não sei é se o realizado negativo da era é ruído de amostra curta ou sinal de que o grupo de tendência está no regime errado, e pouco mais de três semanas de mercado, com 511 negócios, não decidem isso. O gate que decide é o de dois meses, contado da âncora de 14 de julho, com veredito esperado por volta de 14 de setembro de 2026. Até lá o portfólio segue rodando sem eu mexer nele, que é a única forma de o teste significar alguma coisa.

O veredito de setembro vai olhar o que já está definido desde o capítulo quatro. Primeiro, se algum robô furou o próprio teto e foi trocado pelo disjuntor. Segundo, qual foi o pior saldo em aberto do conjunto no período, porque é ele que governa margem, e terceiro, se o resultado sobreviveu fora da janela em que o portfólio foi escolhido, que é a pergunta que abriu o primeiro capítulo desta série.

Um dia de payroll não decide nada, e é por isso que ele virou capítulo em vez de virar decisão. O portfólio fez o que foi construído para fazer. Nenhum robô estourou. O teto do conjunto não foi encostado. E o livro terminou a semana acima da base, com quase todo o azul pendurado em posição aberta, que é exatamente o risco que este projeto passou nove capítulos aprendendo a medir. Isso faz parte. Seguimos monitorando.

Acompanhe a série para não perder o veredito. O diário continua.

Perguntas frequentes

Por que uma queda de 92 dólares vira um capítulo?

Porque a informação está na proporção. O portfólio roda lote de 0,01 sobre uma base de 9.866,82 dólares, então a queda de 92,09 dólares daquela sexta equivale a 0,93% da conta e o pico de 117,29 dólares equivalia a 1,19%. O que faz o dia virar capítulo é onde a queda estava: 73,23 dos 92,09 dólares eram posição aberta, contra 18,86 de resultado já fechado.

Qual a diferença entre resultado realizado e resultado em aberto?

O resultado realizado é o que já virou saldo, somando cada negócio encerrado com sua comissão e seu swap. O resultado em aberto, também chamado de flutuante, é quanto valeriam as posições ainda vivas se fossem fechadas agora, e ele muda a cada tick. O relatório de backtest mostra o primeiro. A corretora calcula margem com o segundo. Na era n=54 os dois andaram em direções opostas: o realizado está em 31,19 dólares negativos e o flutuante mantém o total positivo, em 30,04 dólares.

Por que o portfólio tem robôs de grid e robôs de tendência ao mesmo tempo?

Porque os dois cobram regimes de mercado opostos. O grid abre posição e segura enquanto espera o preço voltar para uma faixa, então ele paga quando o mercado vai e volta, e o robô de tendência entra a favor de um movimento e precisa que ele continue. O dia 7 de agosto de 2026 mostrou a divisão em números: o grupo de 15 grids fechou 14,40 dólares positivo e o grupo de 39 robôs de tendência fechou 33,70 negativo.

O que acontece em setembro de 2026?

Fecha o gate de dois meses contado da âncora de 14 de julho de 2026, com veredito esperado por volta de 14 de setembro. Ele vai olhar se algum robô furou o próprio teto e foi trocado, qual foi o pior saldo em aberto do conjunto e se o resultado sobreviveu fora da janela de escolha.

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Quem escreve: Flávio Araújo

Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube

Flávio Araújo
Flávio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

Artigos: 178