Diário de um Portfólio de Robôs (3): Onde Está a Vantagem no Forex? O Mapa dos Becos sem Saída

Procurei vantagem durável no forex em várias rodadas e montei o mapa dos becos sem saída: o muro do edge, o trend que não paga e por que diversificar por par é quase ilusão.

Direto ao ponto

Depois de aceitar que selecionar robôs pelo passado não funciona, fui atrás da pergunta de fundo: existe vantagem durável no forex? Testei as candidatas uma a uma. Tendência no EURUSD deu Sharpe perto de 0,26. Uma cesta de 8 majors com peso igual ficou em torno de zero. O USDJPY parece ótimo, com Sharpe 0,45, mas 4 anos fizeram todo o lucro e os outros 14 somam quase nada. E até um trend amplo, multi-mercado e líquido de custo encostou em 0,02. O que saiu disso não foi uma vantagem. Foi um mapa dos becos sem saída.

O capítulo anterior matou a ideia de escolher os melhores robôs. Isso me deixou com uma pergunta que eu vinha empurrando com a barriga. Se o que parece vantagem é só ajuste ao regime recente, onde está a vantagem que de fato sobrevive? Em vez de assumir que ela existe em algum lugar, fiz o contrário. Tratei cada fonte de vantagem possível como suspeita e tentei derrubar uma por uma. Foram várias rodadas. O que sobrou no fim é mais valioso que qualquer robô, porque cada beco sem saída provado economiza meses de quem tentaria o mesmo caminho.

O muro não é o custo

A primeira coisa que eu precisei separar foi custo de vantagem, porque é fácil culpar o custo. No EURUSD, o custo total de ida e volta roda em torno de 0,7 pip, o que dá cerca de 0,0065% do valor negociado, algo como 7 centavos de dólar por 0,01 lote. Comparado ao alvo de um trade, que eu miro em 0,2%, isso é migalha. O custo não é o muro.

O muro é outro, e é mais duro de encarar. Os robôs rendem, dentro da amostra, algo como 0,06% por trade, uns 73 centavos de dólar, mais de dez vezes o custo. No teste honesto, numa era que eles não viram, esse número desaba para cerca de um centavo por trade, abaixo do próprio custo. A vantagem não é comida pelo custo, ela simplesmente evapora no futuro.

E por que ela evapora? Porque o gerador de robôs faz milhares de tentativas, e com tentativas suficientes o acaso sozinho produz curvas lindas. O teorema da estratégia falsa põe número nisso: o melhor Sharpe esperado por puro acaso sobe de cerca de 1,8 com algumas centenas de tentativas para perto de 2,5 com dezenas de milhares (Bailey e López de Prado, 2014). Achar seiscentos robôs que passaram não é evidência de nada, é o que o ruído entrega de graça quando você procura demais.

O muro é a sobrevivência da vantagem, não o pedágio para operá-la. Quem foca no custo está discutindo o troco enquanto a conta principal não fecha. Foi por isso que eu parei de tentar espremer mais alguns robôs do gerador e fui atacar a pergunta de cima: existe alguma vantagem de tendência que dure?

O benchmark que faltava: tendência de verdade

Quando se fala em vantagem durável no forex, a literatura aponta para um lugar específico: tendência de meses, não de minutos. É o efeito que Moskowitz, Ooi e Pedersen (2012) documentaram, o time series momentum, que persiste de 1 a 12 meses em praticamente toda classe de ativo. Então peguei a regra mais simples possível de tendência, sem otimizar nada, e rodei.

No EURUSD sozinho, o Sharpe ficou em torno de 0,26 no horizonte de 3 meses e praticamente zero em 12 meses. Fraco. A reação natural é diversificar, então montei uma cesta de 8 majors com peso igual. O drawdown máximo caiu de 53% para 17%, o que é ótimo. Mas o Sharpe ficou entre 0,00 e 0,07. A largura cortou o risco e não criou vantagem.

Sharpe das estrategias de tendencia testadas no forex, todas perto de break-even

Por que espalhar em 8 pares não ajudou? Porque a régua certa de diversificação não é o número de ativos, é o número de apostas independentes. A lei fundamental da gestão ativa resume isso numa relação só:

IR \approx IC \cdot \sqrt{BR}

O IR é o índice de informação, o quanto de retorno ajustado ao risco você extrai. O IC é a sua habilidade de prever, a correlação entre o que você aposta e o que de fato acontece. E o BR é o breadth, o número de apostas realmente independentes por período. O detalhe que mata a cesta de majors está embaixo da raiz. Todo major é cotado contra o dólar, então quando o dólar se mexe eles andam quase juntos. Oito pares não são oito apostas, são quase uma só repetida oito vezes. O BR real fica perto de 1 ou 2, não 8. Você diversificou o risco no papel, mas não aumentou o número de apostas, e sem breadth não nasce IR. A referência é Grinold (1989).

Eu não fiquei só na teoria. Medi o número de apostas independentes do meu próprio livro de robôs com uma análise de componentes principais, e o resultado bate com a fórmula. As oito pernas de trend colapsam em 2,46 apostas de verdade, com um único fator, o dólar, explicando 67% de todo o movimento. Diversificar por par é, na prática, repetir quase a mesma aposta oito vezes.

Oito pares de forex colapsam em 2,46 apostas independentes, fator dolar explica 67%

O caso USDJPY: vantagem ou aposta de regime?

Um par se destacou na cesta, o USDJPY, com Sharpe 0,45. Parecia o vencedor. Mas eu já tinha aprendido a desconfiar de número bonito, então abri ano a ano. Quase todo o lucro de 18 anos veio de quatro anos apenas: 2013 com +23,8%, 2014 com +24,8%, 2021 com +10,8% e 2022 com +25,2%. Os outros catorze anos, somados, dão perto de menos um por cento.

Retorno ano a ano do trend no USDJPY, quatro anos fizeram quase todo o lucro

E não é só concentração, a cauda é feia. O pior mês foi uma queda de 12,8%, e em agosto de 2024 o par caiu quase 8% num episódio com gap de fim de semana, o tipo de movimento que pula por cima de qualquer stop. Pior ainda, o regime que pagava aqueles quatro anos está fechando, com 2024 e 2025 levemente negativos. O que parecia vantagem é uma aposta de regime concentrada. O USDJPY pagou enquanto o diferencial de juros entre o Japão e o resto do mundo ficou aberto, o velho carry trade. Quando esse motor desliga, ou pior, reverte num gap, o lucro de anos some em semanas. E ainda havia um viés escondido na minha medição: o 0,45 foi o melhor de oito pares, então parte dele é só ter escolhido, depois do fato, o que deu certo.

E fora do forex? O trend multi-classe

Antes de desistir da tese de tendência, fiz o teste mais importante de todos, que eu chamo de validar o validador. A ideia é simples. Pego a estratégia com a vantagem mais comprovada das finanças, o trend seguido em várias classes de ativo ao mesmo tempo, e rodo pelo meu próprio filtro. Se nem ela passa, o problema é o meu filtro, não o mercado.

Rodei sobre 25 instrumentos (7 moedas, 10 índices e 8 entre energia e metais), com a tendência medida em três velocidades, de 3, 6 e 12 meses, sem títulos de renda fixa, porque a corretora não os oferece. O resultado bruto foi Sharpe 0,15, com drawdown máximo de 14,7% e uma seca de quase nove anos no pior trecho. Líquido do custo de rolagem, 0,14. E líquido também do financiamento de carregar posição via CFD, caiu para 0,02. Praticamente zero.

O número que importa aqui não é o 0,02, é a comparação entre o bruto e o líquido. Eles são quase iguais, 0,15 contra 0,14. Isso me disse uma coisa tranquilizadora: o custo não está distorcendo a medição, a minha régua é honesta. A tendência multi-classe saiu fraca por estrutura, não por erro de conta. O trend forte de verdade mora em títulos de renda fixa, em décadas anteriores a 2011 e em contratos futuros, justamente as coisas que o varejo de CFD não acessa. O edge de tendência acessível é break-even no fino, e agora eu sabia disso com número, não com achismo.

Dá para ver isso por era, e é o que explica por que tanta gente larga o trend no meio do caminho. O Sharpe foi levemente positivo de 2012 a 2015 (+0,12), virou negativo de 2016 a 2019 (−0,23) e de novo de 2020 a 2023 (−0,11), e só voltou forte de 2024 em diante (+0,76). Quem entrou em 2016 esperou quase oito anos por um período bom. É o que se chama de recessão de tendência, e ela é longa o bastante para quebrar a paciência de quase qualquer um.

Sharpe do trend multi-classe por era, negativo em duas das quatro eras

O mapa dos becos sem saída

Juntando as rodadas, o que se formou foi um mapa. Não de onde está o ouro, mas de onde ele não está. Cada um destes eu testei e descartei com número na mão:

  1. Selecionar os melhores robôs pelo desempenho passado. Pior do que usar todos com peso igual.
  2. Confiar que um robô de setup do gerador sobrevive no futuro. É garimpo, e a vantagem evapora fora da amostra.
  3. Tendência no EURUSD sozinho. Sharpe perto de zero.
  4. Multiplicar pares de forex. Os majors andam juntos pelo fator dólar, o breadth real é baixo.
  5. Usar o USDJPY como fonte de vantagem. Sobrevive, mas é aposta de regime, não edge.
  6. Tratar uma razão de payout alta, com stop gain maior que o loss, como vantagem. É estilo de saída, não edge.

Um mapa de becos sem saída parece derrota, mas é o contrário. Saber com precisão onde não há vantagem é o que me impede de queimar capital tentando, e é o que aponta, por eliminação, para o único caminho que essas rodadas nunca tinham fechado.

Mapa dos becos sem saida: seis fontes de vantagem descartadas e uma porta aberta

O que sobra, e o próximo capítulo

Por eliminação, sobra uma direção. Se nenhuma fonte isolada de vantagem se sustenta, e se diversificar por par não funciona porque os pares são a mesma aposta, então a saída não é achar o robô ou o par mágico. É diversificar por comportamento. Eu já tinha medido que isso move a agulha: as apostas independentes do meu livro de robôs passam de 2,46, só com tendência, para 5,69 quando entram os robôs de grid, e a correlação entre as duas pernas é de −0,15, ou seja, elas de fato não andam juntas. Juntar robôs que ganham em regimes opostos, um que lucra quando o mercado anda e outro que lucra quando o mercado fica parado, e proteger o conjunto com um corte de risco que age quando a coisa desanda. Foi nesse ponto que o projeto virou a chave, parou de caçar o robô eterno e virou outra coisa. É o assunto do próximo capítulo.

Acompanhe a série para não perder. O próximo sai em poucos dias.

Perguntas frequentes

Por que o custo não é o maior problema do forex?

Porque, numa conta com spread apertado, o custo de ida e volta no EURUSD fica em torno de 0,0065% do valor negociado, uma fração do alvo de cada trade. O problema real é outro: a vantagem que aparece no histórico tende a evaporar fora da amostra. O muro é a durabilidade da vantagem, não o pedágio.

Por que diversificar em vários pares de forex não cria vantagem?

Porque os majors são todos cotados contra o dólar e se movem quase juntos quando o dólar se mexe. Pela lei fundamental da gestão ativa, o que gera retorno ajustado ao risco é o número de apostas independentes, não o número de ativos. Oito pares correlacionados contam como uma ou duas apostas, então a cesta corta risco sem criar vantagem.

O USDJPY não é uma boa estratégia de tendência?

O Sharpe de longo prazo parece bom, perto de 0,45, mas quatro anos fizeram quase todo o lucro e os outros catorze somam cerca de menos um por cento. É uma aposta de regime ligada ao carry trade, com cauda violenta em episódios de gap. Sobrevive, mas não é uma vantagem durável e estável.

O que é “validar o validador”?

É rodar pela sua própria metodologia a estratégia com a vantagem mais comprovada que existe, no caso o trend multi-classe. Se ela não passa, o filtro é que está cego a edge real. No meu teste, o bruto e o líquido ficaram quase iguais (0,15 contra 0,14), o que confirmou que a régua é honesta e que o trend acessível é mesmo break-even.

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Flavio Araújo
Flavio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

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