Carry Trade e Swap no Forex: O Custo que Meu Backtest Apagou em 36.170 Dias-Posição

Carry trade ganha o diferencial de juros entre moedas, mas tem cauda esquerda devastadora. O premio e real; o desmonte em risk-off apaga anos de ganho. Como operar com rede.

Atualizado em 25/08/2026

O número: 36.170 dias-posição. Foi isso que eu encontrei quando auditei meus próprios backtests de forex: em 36.170 dias de posição carregada de um pregão pro outro, o custo de swap estava modelado como zero. O carry trade, o prêmio que a literatura acadêmica estima com Sharpe histórico de 0,54, estava simplesmente apagado das minhas simulações. Nem o que ele paga aparecia, nem o que ele cobra. E ele cobra: no unwind do iene de 2024, minha carteira de USDJPY perdeu $683 em três semanas, e 93% dos meus robôs sobreviventes nesse par eram comprados no carry sem que eu tivesse decidido isso.

Carry trade é a estratégia de tomar dinheiro emprestado numa moeda de juro baixo e aplicar numa moeda de juro alto, embolsando o diferencial. No forex de varejo, esse diferencial chega na sua conta todo dia com um nome menos glamouroso: swap. E é exatamente por chegar como uma linha pequena e diária no extrato que ele é a coisa mais fácil de ignorar num backtest. Eu ignorei. Este artigo é a história de como descobri isso nos meus próprios números, o que o custo de swap desligado escondia, o que o unwind do iene em 2024 cobrou de uma vez, e por que esse episódio pesou na minha conclusão de que o forex tem menos fatores de risco independentes do que parece.

O que a pesquisa mostra: Lustig, Roussanov e Verdelhan ordenaram moedas por taxa de juros e identificaram um fator comum de carry (HML-FX) com excesso de retorno na casa de 4,8% ao ano e Sharpe em torno de 0,54 no período estudado, um dos prêmios mais bem documentados em moedas (Lustig, Roussanov e Verdelhan, 2011).

O carry trade e o swap são a mesma coisa vista de dois balcões

A mecânica do carry é antiga. Você vende a moeda de financiamento (historicamente o iene japonês ou o franco suíço, moedas de juro perto de zero) e compra a moeda de investimento (dólar australiano, real, ou o próprio dólar americano nos ciclos de juro alto). O retorno da posição se decompõe em duas partes: retorno do carry = diferencial de juros + variação cambial. Se o câmbio ficar parado, você ganha o diferencial. A teoria da paridade descoberta de juros (UIP) diz que isso não deveria funcionar, porque a moeda de juro alto deveria se depreciar exatamente o suficiente pra anular o diferencial. Desde a regressão de Fama (1984), os dados dizem o contrário: em média, a moeda de juro alto não se deprecia o que a teoria manda, e o carry trade fica com a diferença.

Quando você opera forex numa corretora de varejo, esse diferencial de juros vira o swap (também chamado de rollover): um crédito ou débito lançado toda noite pra cada posição que atravessa o horário de rolagem. O valor é o diferencial de juros do par, menos a margem que a corretora embute. Comprado em USDJPY entre 2022 e 2024, com o Fed pagando mais de 5% e o Banco do Japão perto de zero, você recebia swap todo dia. Vendido no mesmo par, você pagava. O swap é o fluxo de caixa do carry trade. Quem carrega posição de um dia pro outro está dentro do carry trade, sabendo ou não.

A literatura mede o prêmio: Sharpe de 0,54 no fator de carry

O prêmio de carry é um dos fatos empíricos mais bem documentados em moedas. Lustig, Roussanov e Verdelhan (2011) ordenaram moedas por taxa de juros, montaram carteiras compradas nas de juro alto e vendidas nas de juro baixo, e identificaram um fator comum (que chamaram de HML-FX) com excesso de retorno na casa de 4,8% ao ano e Sharpe em torno de 0,54 no período estudado. Koijen, Moskowitz, Pedersen e Vrugt (2018) mostraram depois que o mesmo princípio, ser pago pra carregar, aparece em praticamente toda classe de ativo, de commodities a renda fixa.

Então o prêmio existe e é mensurável. O problema está no formato da distribuição. Brunnermeier, Nagel e Pedersen (2008) documentaram que os retornos das moedas de juro alto têm assimetria negativa forte: muitos meses pequenos e positivos, pontuados por quedas raras e violentas quando o carry desmonta em bloco. A frase deles ficou famosa: o carry sobe pela escada e desce de elevador. O mecanismo é liquidez de funding evaporando, todo mundo correndo pra desfazer a mesma posição ao mesmo tempo, e a moeda de financiamento disparando. Um prêmio com essa cara se comporta como venda de seguro: você recebe um pouco todo dia por aceitar uma perda grande e concentrada de vez em quando.

Meu backtest apagou o carry: 36.170 dias-posição com swap zero

Agora a parte que eu não vi ninguém publicar sobre a própria operação. Em 2026 eu rodei uma auditoria adversarial na minha esteira de validação de robôs (grids e sistemas de tendência em EURUSD, GBPUSD, USDJPY e USDCAD, todos com posições que atravessam dias e às vezes semanas). Um dos furos encontrados: nas trade-lists das minhas simulações, o swap estava modelado como zero. Somando a duração de todas as posições, eram 36.170 dias-posição carregados de um dia pro outro sem que a simulação lançasse um centavo de crédito ou débito de carrego.

Repare no que isso significa pra qualquer estratégia que segura posição. O swap zerado mente pros dois lados ao mesmo tempo. Os robôs comprados em USDJPY receberiam swap na conta real e o backtest não creditou, então o resultado simulado deles estava subestimado. Os robôs vendidos pagariam swap todo dia e o backtest não debitou, então o resultado deles estava inflado. Pior que o erro no número final é o erro no diagnóstico: com o swap desligado, eu não tinha como saber quanto do lucro de cada robô era sinal econômico do carry (o diferencial pingando diariamente) e quanto era timing de preço de verdade. O backtest tinha apagado exatamente a variável que explica por que a estratégia parecia funcionar.

A correção foi simples de descrever e trabalhosa de executar: remodelar as trade-lists com o custo de carrego dentro da conta, posição por posição, e passar a acompanhar o swap realizado da conta como uma linha separada do resultado de preço. Sem essa separação, o extrato mistura duas fontes de retorno com riscos completamente diferentes: o retorno de preço, que o robô de fato busca, e o retorno de carrego, que é prêmio de seguro com a cauda descrita acima. Detalhei os números dessa remodelagem no artigo sobre custo de swap em backtest de algotrading.

Curva do carry: sobe pela escada (swap diário) e desce de elevador no unwind do iene de 2024, USDJPY -683 dólares em 3 semanas

O elevador chegou em julho de 2024 e cobrou $683 em três semanas

Eu tenho a escada e o elevador medidos no meu próprio livro. Entre 25 de julho e 12 de agosto de 2024, o Banco do Japão apertou a política monetária, o mercado desmontou o carry de iene em bloco e o USDJPY caiu de cerca de 161 pra 141. Nas minhas trade-lists reais (lote 0,01), a perna de USDJPY perdeu $683 nessa janela de três semanas, e arrastou o livro inteiro pra $546 no vermelho, mesmo com EURUSD positivo em $148 no mesmo período. Meses de resultado pequeno e regular, devolvidos numa janela que coube num ciclo de férias escolares.

Dois detalhes desse episódio me ensinaram mais que o número em si. Primeiro, a perda de $683 provavelmente está subestimada, porque a janela foi medida em tick sintético (a corretora só tem tick real a partir de 2025), e tick sintético interpola suavemente o que na realidade foi salto de preço com spread aberto. O evento que define a cauda estava medido justamente no tipo de dado que esconde a cauda. Segundo, o risco se revelou crônico em vez de pontual: quando separei os 32 piores dias do livro no período 2024-2026, só 2 deles caíram dentro do unwind. O pior dia isolado foi 21 de abril de 2025, com perda de $741, fora de qualquer manchete de carry. Um livro exposto ao carry sangra na cauda com alguma regularidade em qualquer regime de iene forte, e o episódio famoso é só o exemplar mais fotogênico.

A seleção de robôs comprou o carry por mim: 93% dos sobreviventes eram long

O achado que mais me incomodou veio depois, quando olhei a composição do que tinha sobrevivido ao meu funil de seleção. Dos 67 robôs de USDJPY que passaram por todas as etapas de validação (backtest, out-of-sample, Monte Carlo), 93% eram comprados. Eu nunca escrevi em lugar nenhum “quero estar comprado no carry de iene”. Mas o período de garimpo e seleção cobria 2019 a 2024, os anos em que estar comprado em USDJPY pagava diferencial e ainda surfava a tendência de alta do par. Qualquer processo que seleciona robô por resultado passado nesse período ia, com enorme probabilidade, encher a prateleira de compradores de carry.

Isso tem um nome: viés de sobrevivência aplicado a estratégias. E tem uma consequência perversa que eu demorei pra enxergar: a cauda do portfólio se torna endógena ao processo de seleção. Eu não tinha 67 fatores de risco diversificados com uma exposição incidental ao iene. Eu tinha uma posição grande e concentrada no carry continuar de pé, montada peça por peça por um filtro que premiava quem tinha surfado o carry até ali. Quando o unwind veio, os robôs “independentes” perderam juntos porque o filtro que os escolheu era o fator comum entre eles. Quem monta portfólio de robôs escolhendo os de melhor histórico está, sem perceber, comprando o fator que dominou o período do histórico. No forex de 2019 a 2024, esse fator era o carry.

O que eu mudei na prática depois desses três números

Primeiro, swap modelado sempre, sem exceção. Backtest de estratégia que carrega posição sem custo de carrego dentro da conta é ficção, e ficção na direção que mais engana: infla vendedor de moeda de juro baixo e esconde de quem está comprado que parte do lucro é prêmio de seguro. Segundo, passei a decompor o resultado em retorno de preço e retorno de carrego, porque os dois têm distribuições diferentes e o segundo cobra de elevador. Terceiro, passei a auditar a direção líquida do portfólio por fator antes de confiar em qualquer métrica de diversificação: se 93% dos robôs de um par apontam pro mesmo lado, a correlação diária entre eles é irrelevante, a cauda é uma só. Quarto, dimensiono a posição pro dia do elevador em vez do ano da escada: a pergunta de tamanho deixou de ser “quanto isso rende por mês” e virou “quanto isso perde nas três piores semanas, medido num dado que não alisa o gap”.

O prêmio de carry é real, os papers estão certos e o Sharpe de 0,54 do fator é dos números mais replicados da literatura de moedas. O que eu aprendi com 36.170 dias-posição de swap apagado cabe em três perguntas, e nenhuma delas questiona a existência do prêmio: o seu backtest consegue enxergar o carry? A sua seleção já te encheu dele sem pedir licença? O seu tamanho de posição sobrevive ao dia em que ele desmonta?

Os números deste artigo

Métrica Valor Contexto
Dias-posição com swap modelado como zero 36.170 achado da auditoria dos backtests
Perda da perna USDJPY no unwind de 2024 $683 três semanas, lote 0,01
Livro inteiro na mesma janela −$546 mesmo com EURUSD positivo em $148
Robôs de USDJPY sobreviventes comprados 93% dos 67 aprovados pelo funil
Piores dias dentro do unwind famoso 2 de 32 a cauda é crônica, não pontual
Pior dia isolado (21/04/2025) −$741 fora de qualquer manchete de carry

O que é o swap no forex e o que ele tem a ver com carry trade?

Swap (ou rollover) é o crédito ou débito diário lançado em toda posição de forex que atravessa o horário de rolagem da corretora. O valor reflete o diferencial de juros entre as duas moedas do par, menos a margem da corretora. Ele é o mecanismo pelo qual o prêmio de carry chega (ou é cobrado) na conta de varejo: comprado na moeda de juro alto você tende a receber, vendido você tende a pagar.

Swap zerado no backtest melhora ou piora o resultado simulado?

Depende do lado da posição, e é por isso que o erro é tão traiçoeiro. Para posições que receberiam swap (compradas no diferencial positivo), o backtest sem swap subestima o resultado. Para posições que pagariam, ele infla. Nos meus 36.170 dias-posição sem swap, o dano maior nem foi o número final: foi não conseguir separar quanto do lucro de cada robô era timing de preço e quanto era o diferencial de juros pingando, que é um retorno com outra distribuição de risco.

Como saber se meus robôs estão comprados no carry sem eu ter decidido isso?

Some a direção líquida dos robôs sobreviventes por par e compare com o regime de juros do período de seleção. No meu caso, 93% dos robôs de USDJPY aprovados pelo funil eram comprados, exatamente o lado que o carry pagou de 2019 a 2024. Seleção por resultado passado tende a concentrar o portfólio no fator que dominou o período do histórico, e a cauda desse fator vem junto, escondida da correlação diária.

Carry trade funciona com o real brasileiro?

O real é historicamente uma moeda de investimento clássica do carry, pelo juro alto. A mecânica é a mesma e a assimetria também: o diferencial paga devagar e as crises cobram rápido, como a literatura de crashes cambiais documenta para toda moeda de juro alto. Quem opera dólar contra real carregando posição está exposto ao mesmo formato de distribuição, com o agravante da liquidez menor em estresse.

Referências

  • Lustig, H.; Roussanov, N.; Verdelhan, A. (2011). Common Risk Factors in Currency Markets. Review of Financial Studies, 24(11). nber.org/papers/w14082.
  • Brunnermeier, M. K.; Nagel, S.; Pedersen, L. H. (2008). Carry Trades and Currency Crashes. NBER Macroeconomics Annual, vol. 23. nber.org/papers/w14473.
  • Fama, E. F. (1984). Forward and Spot Exchange Rates. Journal of Monetary Economics, 14(3). sciencedirect.com.
  • Koijen, R. S. J.; Moskowitz, T. J.; Pedersen, L. H.; Vrugt, E. B. (2018). Carry. Journal of Financial Economics, 127(2). ssrn.com/abstract=2298565.

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Quem escreve: Flávio Araújo

Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube

Flávio Araújo
Flávio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

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