Diário de um Portfólio de Robôs (17): O Saldo a 16 Dias do Veredito, e o Tombo que eu Anotei Menor do que Foi

Quarenta e cinco dias de teste em simulado: 92,89 dólares de resultado, 417 operações e nenhum robô retirado. E o pior tombo da era era 207, não os 156 que eu tinha anotado.

Direto ao ponto. Quarenta e cinco dias de teste em conta simulada, e o portfólio de 54 robôs está 92,89 dólares acima do saldo com que começou, 0,94%. A nota que decide esse teste é o tamanho do tombo, e o pior tombo dos 45 dias foi de 207,48 dólares contra uma banda de 439. Eu tinha anotado 156. O número mudou porque eu li o painel no fim da tarde, e o pior instante daquele dia tinha acontecido ao meio-dia.

O portfólio entrou no ar em 14 de julho com 9.866,82 dólares e hoje marca 9.959,71. São 92,89 dólares de resultado em 45 dias, ou 0,94%. Desses, 69,10 já estão fechados no saldo e 29,80 são posição aberta, que pode virar qualquer coisa até fechar. Esse pedaço ainda não é meu. Nenhum robô saiu, nenhum entrou. É a mesma carteira que eu registrei antes de ligar, como o capítulo 9 prometeu.

Esse retorno não decide nada, e eu escrevi isso antes de começar, porque dois meses de resultado são ruído para uma estratégia com Sharpe esperado perto de 0,5, e uma leitura de desempenho nesse prazo diz mais sobre o pedaço de mercado que calhou de acontecer do que sobre a carteira. O que decide é o tombo. E foi aí que eu tropecei. No capítulo 14 e no seguinte eu venho repetindo o número do pior tombo da era como se fosse um fato estabelecido. O valor real era 32% maior. Erro meu, de leitura.

Curva de resultado do portfólio de 54 robôs em conta simulada entre 14 de julho e 29 de agosto de 2026, com topo de 117 dólares em 7 de agosto, fundo de 90 dólares negativos em 21 de agosto e 100 dólares hoje.

O saldo de hoje, com a conta fechando

A conta simulada é da Tickmill e ela me mostra o número de duas formas: o saldo, que só conta operação encerrada, e o patrimônio, que soma o que ainda está na mão. A diferença entre os dois é o que me interessa desde o capítulo 6. Ela é o risco que ainda não virou resultado.

Medida Valor
Saldo (só o que fechou) 9.929,91
Patrimônio (com posição aberta) 9.959,71
Saldo com que a era começou 9.866,82
Resultado fechado dos 45 dias +69,10
Resultado ainda em aberto +29,80
Resultado da era +92,89 (0,94%)
Posições abertas agora 51
Robôs no ar 54 de 54

A conta fecha. Eu faço questão de mostrar a aritmética, porque já publiquei número que não fechava e apanhei por isso. São 69,10 de fechado mais 29,80 de aberto, menos os 6,01 que já estavam abertos no dia em que a era começou. O total dá 92,89 dólares.

A nota que decide o teste em 14 de setembro

Antes de ligar o portfólio eu escrevi as bandas, e elas são sobre o tombo. A métrica se chama binding no meu painel e é simples de dizer em português: a maior queda do patrimônio desde o topo anterior, contando o que está aberto. Rodei essa mesma medida em 122 janelas de dois meses do backtest do portfólio de 54 robôs, e guardei os três números que ficaram valendo como régua antes de qualquer operação acontecer. Eles não mudam mais.

Referência Valor em dólares Onde o portfólio está
Mediana das janelas de dois meses 258 80,4%
Percentil 95, a banda de aprovação 439 47,3%
Pior janela que o backtest produziu 603 34,4%
Linha de reprovação 768 27,0%

O portfólio está longe das quatro linhas. O pior tombo real dos 45 dias foi 207,48 dólares, e o pior prejuízo em aberto num único instante foi 126,31, contra uma banda de 476 para essa segunda medida. Para reprovar nos 16 dias que faltam, o portfólio teria que produzir um tombo 3,7 vezes maior do que o pior que produziu até aqui. Seria outro animal.

Falta uma ressalva. Essas bandas saíram do mesmo período em que os robôs foram escolhidos, então são in sample e otimistas por construção, o que significa que o backtest teve a chance de encaixar naquele pedaço de mercado e a demo não tem. O ajuste que eu meço para isso no walk-forward é de 1,75 vez. Esse ajuste foi medido, não estimado. É dele que sai a linha de 768, que são os 439 multiplicados por 1,75. A régua que mede e a régua que reprova são a mesma, corrigida pelo tanto que o mundo real costuma piorar o backtest.

O tombo que eu anotei menor do que foi

Em 21 de agosto eu escrevi que o pior tombo da era tinha sido de 156,73 dólares, naquele mesmo dia. O dia estava certo. O valor, não.

Quando fui montar este balanço, varri a série inteira que o monitor grava, 1.233 leituras desde 14 de julho, e o pior instante apareceu às 12h daquele dia, com 207,48. Fui atrás da diferença. Ela estava no relógio.

Tombo do portfólio hora a hora em 21 de agosto de 2026: 207 dólares ao meio-dia e 156 dólares às 17 horas, a mesma métrica lida em dois momentos do dia.
Hora (UTC) Fechado Em aberto Tombo desde o topo
09:08 +34,17 −123,33 206,45
12:00 +36,12 −126,31 207,48
13:00 +36,12 −104,30 185,47
16:00 +38,07 −76,96 156,18
17:00 +38,07 −77,24 156,46

As duas últimas linhas são a explicação inteira. Os 156,73 que eu anotei são a leitura de 16h ou 17h, que é quando eu estava escrevendo o capítulo. O painel responde uma pergunta legítima, que é quanto eu estou caindo agora, e essa é a pergunta de quem opera durante o dia e precisa decidir se mexe em alguma coisa. O teste faz outra pergunta: qual foi o pior momento de dois meses inteiros. Só a série responde essa. Eu usei a resposta errada por uma semana.

Tem um detalhe que torna isso pior, e eu prefiro declarar. O 207,48 é um piso. A série guarda o oscilar da posição aberta a cada cinco minutos nas últimas 24 horas e a cada uma hora antes disso, então entre duas leituras horárias o tombo pode ter passado mais fundo sem ninguém gravar nada. O veredito não muda com isso, porque o número está a 27% da linha de reprovação. O que eu publico é o menor valor compatível com o que eu medi.

A literatura conhece esse problema e ele tem nome. Magdon-Ismail e coautores (2004) mostraram que a queda máxima esperada de um processo aleatório cresce com o tempo de observação e com a frequência com que você olha. Olhar mais vezes acha mais fundo. Comparar dois tombos medidos com cadências diferentes é comparar coisas distintas, e eu fiz exatamente isso comigo mesmo, com uma semana de diferença.

O que a série mostra dos 45 dias

Com a série na mão, dá para contar o período em vez de descrever a sensação dele. O portfólio teve algum instante no vermelho em 14 dos 47 dias de calendário desde que ligou, e esses 14 vêm em dois blocos bem separados. Sete são os primeiros dias, de 14 a 20 de julho, com a carteira ainda montando posição. Os outros sete são de 19 a 25 de agosto, que foi a semana ruim de verdade. Foi a única ruim.

Momento Resultado da era
Topo, em 7 de agosto às 11h +117,29
Fundo, em 21 de agosto às 12h −90,19
Fechamento de 25 de agosto −2,30
Fechamento de 28 de agosto +108,51
Hoje +100,37

Entre 26 e 28 de agosto o resultado voltou 110 dólares em três dias, e quase tudo veio da posição aberta se recuperando, de 44,87 negativos para 37,94 positivos. É o capítulo 6 de novo. O que balança essa carteira é o que ainda está na mão, e quem olha só o extrato de operações fechadas está lendo metade da história com a cara de que é a história inteira.

Os dois motores continuam de sinal invertido

A carteira tem dois tipos de robô. São dois motores. Eles não se parecem em nada quando você abre o extrato de cada um deles lado a lado.

Medida (45 dias) Grid (15 robôs) SQX (39 robôs)
Operações encerradas 141 276
Taxa de acerto, líquida 95,7% 36,6%
Resultado fechado +248,36 −177,79
Posição aberta hoje −116,41 +146,21

Os grids acertam quase sempre e ganham pouco de cada vez. Os robôs de tendência erram duas em cada três e vivem do tamanho dos acertos. É o desenho deles. Repare na última linha, que é onde mora a ressalva: 96% de acerto é a assinatura de quem fecha ganho cedo e segura o prejuízo em aberto. Os grids estão com 116 dólares de perda aberta agora, e parte do que eles já realizaram ainda pode voltar para o mercado, o que é exatamente o motivo de existir um teto de aumentos dentro de cada um deles.

Uma nota de método, porque os números vêm de dois lugares. O resultado por grupo sai do meu painel, filtrado pela data em que a era começou. A contagem de operações, a taxa de acerto e o motivo de saída saem do extrato do próprio terminal. As duas contagens batem exatamente, 141 e 276, e a taxa de acerto usa o valor líquido, com swap e comissão, contando só os lançamentos de encerramento. Bateu nas duas fontes. Contar o lançamento de abertura junto corta a taxa pela metade, e esse erro já quase entrou num capítulo desta série.

Execução: nenhum robô parado, nenhum disjuntor disparado

A terceira perna do teste pergunta se os robôs estão operando na mesma frequência do backtest, e ela existe porque um robô travado, desconectado ou pendurado no gráfico errado aparece nessa conta bem antes de aparecer no resultado. Ele some do extrato primeiro. O dinheiro sente depois.

  • 417 operações encerradas em 45 dias, ou 9,27 por dia. No ritmo, dá 565 nos 61 dias do teste, contra uma mediana de 587 e uma faixa de 394 a 679 no backtest. Dentro, e perto do meio.
  • Saída: 315 por decisão do próprio robô, 84 por stop, 18 por alvo.
  • Por par: dólar contra dólar canadense 140 operações e 43,32 positivos; libra 112 e 14,81; iene 96 e 21,72; euro 69 e 2,63. Os quatro no azul.
  • Nenhum robô foi retirado pelo disjuntor de drawdown em 45 dias, contra 1,7 que eu esperava em dois meses. O protocolo trata de zero a três como normal. O robô mais perto do próprio teto de Monte Carlo está em 22,4% dele.

O monitor classifica os 54 como manter, e nenhum aparece divergindo do backtest na frequência de entrada. Nenhum está parado. Isso é o que eu queria ver aos 45 dias, e vale bem mais para mim do que os 92 dólares.

O que falta até 14 de setembro

Faltam 16 dias. O que pode virar o teste nesse tempo é uma sexta-feira de dado forte com muita posição aberta, que foi exatamente o que aconteceu no payroll de 7 de agosto, ou uma semana como a de 19 a 25, se ela vier mais funda. Para reprovar, o tombo precisa passar de 768 dólares e ficar lá. Um dia ruim não basta.

No dia 14 eu escrevo o veredito com os números do fim, e já sei duas coisas que vou fazer diferente. A primeira é medir o pior tombo lendo a série inteira, nunca o painel na hora em que estou escrevendo. A segunda é declarar que o valor é um piso, com a cadência de leitura ao lado. As duas custam dois minutos. Não prometo final feliz. Prometo continuar contando a verdade, inclusive quando a correção é de um número meu.

Perguntas frequentes

Por que o drawdown máximo do portfólio muda conforme a hora da leitura?

Porque drawdown máximo é uma propriedade de um período inteiro. O instante não mede período. O painel mostra a distância entre o topo anterior e o resultado de agora, o que faz o número encolher assim que o mercado alivia. No dia 21 de agosto o meu portfólio marcou 207,48 dólares ao meio-dia e 156,46 às 17h. Para saber o pior de dois meses é preciso varrer a série gravada, e o valor achado assim continua sendo um piso, limitado pela frequência com que a série foi amostrada.

Retorno de 0,94% em 45 dias aprova ou reprova um portfólio de robôs?

Nem uma coisa nem outra, e isso ficou escrito antes de o teste começar. Dois meses de resultado são ruído para uma estratégia com Sharpe esperado perto de 0,5, e 98% das janelas de dois meses do backtest deram positivo, o que torna o sinal fraco nos dois sentidos. O critério de aprovação é o risco: o tombo em dois meses precisa ficar dentro da faixa que o backtest produziu, e a execução precisa ter a mesma frequência. Retorno negativo seria motivo para investigar, nunca para reprovar sozinho.

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Quem escreve: Flávio Araújo

Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube

Flávio Araújo
Flávio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

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