O estudo. Quinta estratégia real que eu abro do meu banco do StrategyQuant X, com SuperTrend, Ulcer Index e média de Hull no EUR/USD em barras de 8 horas. Ela tem o menor rebaixamento de toda a série: US$ 81,58 para um lucro de US$ 292,84 no lote mínimo 0,01. Parece a mais comportada de todas, e é. O problema é outro: desde janeiro de 2023 o saldo dela é negativo em US$ 19,83. São três anos e meio de trabalho que não virou lucro, e ela nem sequer ficou parada nesse tempo: cravou o pico histórico da própria curva em fevereiro de 2025 e devolveu tudo depois.
Isto é um estudo. Digo na primeira linha o que ele não é: não é recomendação para você operar esta estratégia, não é um produto à venda, e não é promessa de nada. Resultado passado não garante resultado futuro, e os valores em dólar são pequenos porque medi tudo no lote mínimo 0,01. Nos textos anteriores desta série apareceram uma estratégia que degradou 52%, uma que degradou 1%, uma que ficou melhor fora da amostra e uma que ganhou tudo num ano só. Esta quinta é sobre a métrica que mais engana quem escolhe robô por planilha.
O que a pesquisa mostra: Bailey, Borwein, López de Prado e Zhu (2014) alertam que métricas de risco calculadas sobre o período de construção são otimistas por definição, porque o otimizador escolheu justamente a configuração que atravessou aquele período com menos solavancos, e nada garante que a suavidade se mantenha depois (Notices of the AMS, 61(5), 458-471).
Como ela funciona, em português
Antes dos parâmetros, o mecanismo. Esta é a estratégia com mais peças da série, onze indicadores no total, e três deles merecem explicação porque são pouco conhecidos.
O primeiro mede o tamanho e a duração das quedas. Imagine que você anota, a cada barra, o quanto o preço está abaixo do maior valor que ele já atingiu no período recente, em porcentagem, e depois eleva cada uma dessas distâncias ao quadrado, tira a média e extrai a raiz. O resultado cresce quando a queda é funda e cresce também quando ela é demorada, o que é diferente de qualquer medida de volatilidade comum, que trata subida e descida igual. Isso se chama Ulcer Index, e o nome vem justamente de medir o desconforto de quem está segurando a posição durante a queda. Esta estratégia usa uma variante dele, que olha só o lado da descida, e compra quando esse número está subindo, ou seja, no meio de uma queda que está piorando.
O segundo é uma linha que troca de lado. Você pega o preço médio recente e afasta dele uma distância proporcional ao tamanho médio das velas. Enquanto o mercado sobe, essa linha fica embaixo, acompanhando de longe. Quando o preço cruza a linha, ela salta para o outro lado e passa a ficar em cima. Isso se chama SuperTrend. Ele responde de forma binária se o movimento em curso é de alta ou de baixa.
O terceiro é a forma de comparar, e ela é mais interessante que o indicador. A regra desta estratégia não pergunta se o SuperTrend está acima ou abaixo de um número fixo. Ela pergunta se o valor de agora está entre os 74,3% menores valores das últimas 101 barras. Você ordena os 101 valores do menor para o maior, corta em 74,3% do caminho e vê se o valor atual está antes desse corte. Isso é um percentil, e é uma régua que se ajusta sozinha ao contexto: o que era “baixo” em 2020 não é o mesmo “baixo” de 2023, e o percentil acompanha essa mudança sem ninguém recalibrar nada.
Tem ainda um detalhe de execução que muda o comportamento. A compra não entra a mercado. Ela deixa uma ordem pendurada num preço acima do atual, que só executa se o mercado chegar lá. Isso filtra entrada. Se o repique não vier com força suficiente para tocar aquele preço, a operação simplesmente não acontece, e em compensação, quando ela acontece, o preço de entrada já é pior do que seria numa ordem a mercado.
A estratégia inteira, em três frases. Ela compra no meio de uma queda que está se aprofundando, desde que o movimento de fundo esteja num patamar historicamente baixo, e ainda exige que o preço reaja o bastante para tocar uma ordem pendurada acima. Ela vende quando a barra abre acima da banda de baixo de um canal e o preço está abaixo da própria média. E a saída da compra não tem gatilho de indicador nenhum: fecha em quatro barras ou no stop de 1,1%, o que vier primeiro.
A lógica completa, sem esconder nada
Abri o arquivo .sqx (nome interno “Strategy 1.9.46”, formato AlgoWizard do StrategyQuant X) e li o XML inteiro: motor MetaTrader 5, avaliação no fechamento da barra de 8 horas, tamanho de posição apontando para a gestão de dinheiro global do projeto. Medi a curva no lote mínimo 0,01.
Entrada comprada. Duas condições, com entrada por ordem stop. O Ulcer Index Down de parâmetros 2 e 20, duas barras atrás, subindo, e o SuperTrend de parâmetros 1, 500 e 0,5, três barras atrás, abaixo ou igual a 74,3% dos valores das últimas 101 barras.
Entrada vendida. Três condições, entrada a mercado. A barra abrindo acima da banda inferior do Canal de Keltner de período 20 e multiplicador 1,5, medida duas barras atrás, mais o CCI de 14 períodos abaixo de zero. Mais o filtro anti-conflito.
Agora o achado deste arquivo. A saída da compra está gravada como constante booleana false, desligada, igual às outras estratégias da série, e até aí nenhuma novidade. A saída da venda é que surpreende: ela exige três eventos ao mesmo tempo, na mesma barra. A média suavizada de 40 cruzando para cima da média de Hull de 24. Mais o Estocástico de 21, 7 e 7, na linha lenta, caindo. Mais o fractal de 5 cruzando para cima da máxima da semana. Três coincidências independentes numa única barra de 8 horas é um evento raro, então na prática essa saída quase nunca dispara e a venda também acaba fechando por stop, alvo ou stop móvel.
É o espelho do problema que encontrei nas outras duas estratégias desta série. Lá havia condições frouxas demais, verdadeiras quase sempre, que não filtravam nada. Aqui há uma condição restritiva demais, quase nunca verdadeira, que também não faz o trabalho que o nome dela promete. Os dois defeitos passam despercebidos por qualquer relatório de desempenho.
Os controles de saída. A compra fecha por saída forçada após 4 barras ou por stop de 1,1%, enquanto a venda tem alvo de 1,5%, stop de 0,5%, movimento do stop para o zero a zero em 190 pontos e stop móvel de 1,7 vez o ATR de 77 períodos. Repare no prazo da compra. Ela vive no máximo 4 barras, pouco mais de um dia, e essa passagem rápida explica boa parte do rebaixamento baixo que aparece na tabela lá embaixo.
Segundo aviso do texto. Mostrar a receita completa não entrega uma máquina de fazer dinheiro. Uma estratégia isolada, sem teto de perda e sem gestão de risco de portfólio, é frágil por construção. O que você acabou de ler é uma peça. E uma peça sozinha não sobrevive a um ano ruim.
Onde ela ganhou, e onde ela parou
Cruzei o resultado ano a ano com o contexto macro do EUR/USD. A história dela tem duas metades bem separadas.
2019 (+US$ 112,66). Par preso entre 1,09 e 1,16, sem catalisador, com o Fed cortando juros no meio do ciclo. Ano bom, e o segundo melhor da história dela.
2020 (−US$ 8,38). O ano da COVID, com o crash de março e a alta firme até dezembro, com o Fed a zero e compra de ativos sem teto anunciado. O ano mais violento do período foi praticamente neutro para ela. Faz sentido: uma estratégia que segura posição por no máximo quatro barras não tem como aproveitar movimento longo.
2021 (+US$ 62,11). Queda persistente de 1,23 para 1,12, com o mercado precificando o aperto do Fed. Ano positivo e tranquilo.
2022 (+US$ 146,28), o auge. O ano do dólar forte: o Fed subiu 425 pontos-base, veio o choque de energia da guerra na Europa, e o EUR/USD despencou até a paridade em julho e ao mínimo de 0,9536 em setembro, o menor nível desde 2002. Melhor ano dela. Metade do lucro de toda a história saiu daqui.
E aqui o saldo vira. De janeiro de 2023 até junho de 2026, três anos e meio, ela fez −US$ 37,28, +US$ 27,97, −US$ 25,77 e +US$ 15,25. Somando, US$ 19,83 de prejuízo acumulado nesse trecho.
E aqui vale um cuidado que eu quase não tomei. Saldo perto de zero num período longo tem duas leituras opostas, e é fácil escrever a errada. Uma é a estratégia ter ficado quieta, sem operar. A outra é ela ter trabalhado o tempo todo e devolvido o que ganhou. Neste caso é a segunda. Fui medir o caminho e não só o saldo: nesses três anos e meio a curva oscilou US$ 85,43 entre o topo e o fundo, chegou ao pico histórico de toda a série dela, US$ 337,65, em 3 de fevereiro de 2025, e depois devolveu quarenta e cinco dólares até fechar em US$ 292,84. Ela não parou. Ela continuou entrando, ganhando e perdendo, e o líquido dos três anos e meio ficou negativo.
O que mudou no mercado nesse meio de caminho tem nome. Em 2023 o par ficou preso numa faixa de cerca de 830 pips o ano inteiro; em 2024 o miolo ficou entre 1,07 e 1,09; e em 2025 veio o choque tarifário de abril, com uma alta rápida e cheia de saltos. São três regimes diferentes. Nenhum deles é a tendência longa e ordenada de 2022 e 2021, que é o que ela sabe operar.
O rebaixamento baixo que engana
Ela foi construída e otimizada com dados de 2019 a 2023, e 2024 a 2026 é forward real. No in-sample, +US$ 275,39, uma média de US$ 55,1 por ano; no forward, +US$ 18,09, uma média de US$ 7,5 por ano. A degradação é de 86%.
Agora olhe o rebaixamento: US$ 81,58, o menor da série, contra US$ 165,87 da estratégia de Keltner e US$ 247,67 da estratégia de médias exponenciais. Num comparativo de planilha, esta aqui ganha de todas no quesito risco. Ela oscila pouco e passa o ano sem susto. E, nos últimos três anos e meio, também sem ganhar.
E é exatamente aí que mora a armadilha. O rebaixamento baixo aqui é consequência de a estratégia quase não se expor. Ela segura posição comprada por no máximo quatro barras, usa stop de 1,1% e entra por ordem pendurada, que descarta boa parte dos sinais. Uma estratégia que fica pouco tempo posicionada e sai rápido tem, mecanicamente, um rebaixamento pequeno. Isso não diz nada sobre ela ganhar dinheiro, e o saldo negativo dos últimos três anos e meio prova.
A régua que teria pegado isso a tempo é a razão entre o que ela ganha e o que ela arrisca, medida só no forward. Nos 2,4 anos fora da amostra ela rendeu US$ 18,09. Nesse mesmo intervalo o rebaixamento não desapareceu, ele apenas ficou proporcional a um lucro que encolheu. Um rebaixamento pequeno sobre um lucro que sumiu continua sendo dinheiro parado, e é assim que a probabilidade de sobreajuste do backtest costuma se manifestar na prática.
O que este estudo ensina
Três lições que passam desta estratégia para qualquer outra.
Primeira, rebaixamento baixo pode ser ausência de exposição. Antes de premiar um robô pelo risco controlado, veja quanto tempo ele fica posicionado e quantos sinais ele descarta, porque esta aqui segura compra por no máximo quatro barras e ainda entra por ordem pendurada que muitas vezes nem executa. O rebaixamento pequeno é consequência aritmética disso. Ler aquilo como prêmio por controle de risco é o erro.
Segunda, condição restritiva demais é tão inútil quanto condição frouxa demais. A saída da venda desta estratégia exige três eventos independentes na mesma barra de 8 horas. No papel é uma regra sofisticada. No efeito, ela quase nunca acontece, e quem fecha as posições são o stop e o alvo. Ler o arquivo é o único jeito de descobrir isso.
Terceira, saldo perto de zero não quer dizer curva parada. São coisas opostas, e confundir as duas é o erro mais fácil de cometer lendo tabela anual. Aqui o saldo de três anos e meio é negativo em US$ 19,83, e ainda assim a curva percorreu US$ 85,43 entre topo e fundo e cravou o pico histórico dela em fevereiro de 2025. Quem olhasse só a coluna do ano escreveria que ela parou em 2022, e estaria errado: ela continuou trabalhando e devolvendo. Medir a amplitude do trecho, e não só o resultado dele, é o que separa as duas leituras.
Fecho com o mesmo aviso do começo. Nada aqui é recomendação. É a dissecação de uma estratégia real com os defeitos escancarados, publicada porque ver onde uma estratégia falha ensina mais do que ver onde ela brilha.
Os números deste estudo
| Métrica | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Net total (7,4 anos, lote 0,01) | +US$ 292,84 | escala junto com o lote; o que importa é o formato da curva |
| Rebaixamento máximo | US$ 81,58 | o menor da série, e consequência de pouca exposição |
| Net in-sample (2019-2023) | +US$ 275,39 | US$ 55,1 por ano |
| Net forward (2024-2026) | +US$ 18,09 | US$ 7,5 por ano; dados nunca vistos na construção |
| Degradação in-sample para forward | 86% | a segunda maior da série |
| Saldo de jan/2023 a jun/2026 | −US$ 19,83 | três anos e meio, com amplitude de US$ 85,43 no trecho |
| Pico histórico da equity | US$ 337,65 | em 3/2/2025, e não em 2022; fecha em US$ 292,84 |
| Melhor ano (2022) | +US$ 146,28 | metade do lucro de toda a história dela |
| Tempo máximo na posição comprada | 4 barras | pouco mais de um dia; explica o rebaixamento pequeno |
Perguntas frequentes
Rebaixamento baixo é sinal de estratégia segura?
Nem sempre, e esta estratégia é o contraexemplo. O rebaixamento dela é o menor de toda a série, US$ 81,58, porque ela segura posição comprada por no máximo quatro barras, usa stop de 1,1% e entra por ordem pendurada que descarta boa parte dos sinais. Pouca exposição produz pouco rebaixamento por aritmética pura, e A prova é que nos últimos três anos e meio o saldo dela é negativo, mesmo tendo oscilado US$ 85,43 entre topo e fundo nesse trecho. Antes de premiar um robô pelo risco baixo, veja quanto tempo ele fica exposto.
O que é o Ulcer Index?
É uma medida de quanto o preço está abaixo do topo recente, considerando ao mesmo tempo a profundidade e a duração da queda. Você anota a cada barra a distância percentual até o maior valor do período, eleva ao quadrado, tira a média e a raiz. O número cresce quando a queda é funda e cresce também quando ela demora a se recuperar. Isso o diferencia da volatilidade comum, que trata subida e descida do mesmo jeito. Esta estratégia usa a variante que olha só o lado da descida, e compra quando esse número está subindo.
Por que o saldo dela ficou negativo depois de 2022?
Os anos que pagaram esta estratégia foram 2019, 2021 e 2022, todos com movimento direcional razoavelmente ordenado. De 2023 em diante o EUR/USD entregou coisas diferentes: um ano inteiro dentro de uma faixa de 830 pips, um ano com miolo estreito entre 1,07 e 1,09, e uma alta rápida cheia de saltos por causa de tarifas. Nenhum desses três regimes é o que ela sabe operar. Ela continuou operando e chegou a fazer o pico histórico da própria curva em fevereiro de 2025, US$ 337,65, mas devolveu quarenta e cinco dólares depois disso. A soma de janeiro de 2023 a junho de 2026 dá US$ 19,83 negativos, mesmo com ela tendo feito o pico histórico da própria curva em fevereiro de 2025.
Essa estratégia está à venda?
Não. Este é um estudo, e abri a lógica inteira de propósito, incluindo cada parâmetro, porque a minha tese é que o valor não está na receita secreta. Não há link de compra nem assinatura, e não estou recomendando que ninguém opere isto. O objetivo é mostrar como uma estratégia real se comporta ao longo de sete anos e por que ela ganha ou perde, para que o leitor aprenda a olhar o processo de validação, que é onde a vantagem mora.
Referências
- Bailey, D. H.; Borwein, J. M.; López de Prado, M.; Zhu, Q. J. (2014). Pseudo-Mathematics and Financial Charlatanism: The Effects of Backtest Overfitting on Out-of-Sample Performance. Notices of the American Mathematical Society, 61(5), 458-471. ssrn.com.
- Martin, P.; McCann, B. (1989). The Investor’s Guide to Fidelity Funds. Wiley. Obra em que o Ulcer Index foi apresentado. tangotools.com.
- López de Prado, M. (2018). Advances in Financial Machine Learning. Wiley. Sobre in-sample contra out-of-sample e por que o backtest superestima. wiley.com.
- Pound Sterling Live. EUR/USD history 2023. Faixa de ~1,0448 a 1,1276, amplitude de ~827 pips no ano. poundsterlinglive.com.
- Anatomia de uma Estratégia Real: a que Ganhou Dois Terços do Lucro em Um Ano Só
- Anatomia de uma Estratégia Real: a que Melhorou 28% Fora da Amostra, e Por Que Isso Preocupa
- Anatomia de uma Estratégia Real: Keltner e Estocástico no EUR/USD, e a Degradação de Só 1%
- Anatomia de uma Estratégia Real: Bollinger e WaveTrend no EUR/USD, 7 Anos Abertos Sem Esconder Nada
Presente para Leitores: Robô de Gradiente Linear Gratuito
Estou liberando o acesso ao meu setup pessoal de Gradiente Linear sem custo nenhum. É só clicar e me pedir o arquivo.
Quem escreve: Flávio Araújo
Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube
