Direto ao ponto
O drawdown que quebra a sua conta não é o que aparece no relatório do backtest, porque esse relatório só conta trades fechados. O que estoura a margem é o saldo flutuante de todas as posições abertas ao mesmo tempo. Eu medi: o saldo aberto do conjunto inteiro de robôs passava de 3.000 dólares no pior momento, mais de quatro vezes o meu teto de risco. E o pior dia não foi na crise do iene que todo mundo esperava, foi em janeiro de 2026, num período sem manchete. É esse drawdown em aberto que decide quantos robôs cabem na conta.
O capítulo anterior foi sobre um número que estava errado por causa de um bug. Este é sobre um risco que eu estava medindo no lugar errado. Não era uma conta com defeito, era a conta certa de uma coisa que não é a que importa. E a diferença entre as duas quase ninguém olha, até a margem apertar.
O relatório conta os fechados, a margem morre nos abertos
Todo relatório de backtest mostra o drawdown dos trades fechados. Você soma o resultado das operações que já terminaram e olha a maior queda dessa curva. Parece o risco, mas não é o risco que te tira do jogo. Um portfólio de robôs, ainda mais com grid, carrega muitas posições abertas ao mesmo tempo. Enquanto nenhuma fecha, o resultado fechado pode estar lindo, e mesmo assim a soma do que está aberto pode estar fundo no vermelho. É essa soma que a corretora olha para a margem, e é ela que encosta no meu teto de risco.
Foi o ponto que mudou a forma como eu seleciono robô. A pergunta deixou de ser apenas se os resultados fechados de dois robôs são descorrelacionados. Passou a ser se o saldo aberto deles se compensa. São coisas diferentes, e essa diferença é a chave do capítulo. Dois robôs podem ter resultado fechado totalmente decorrelacionado e ainda assim ficar ambos no vermelho em aberto no mesmo dia, e é aí que a margem estoura. O que eu quero no portfólio são robôs cujo flutuante de um segura o flutuante do outro.
Como eu medi o flutuante, e os erros no caminho
Para medir isso eu marquei, dia a dia, cada posição aberta a preço de mercado. O saldo flutuante do portfólio num dia é a soma de todas elas:
F_t = \sum_{i\,\in\,\text{abertas}(t)} (P_t - P_{e,i})\,\cdot\,v_i\,\cdot\,m_iCada posição aberta i contribui com a diferença entre o preço de marcação do dia (P_t) e o preço de entrada dela (P_{e,i}), vezes o volume (v_i) e o valor do pip (m_i, que é 100.000 para os pares cotados em dólar e 100.000 dividido pelo preço para os pares contra o dólar). O drawdown em aberto é o pior vale dessa série ao longo do tempo:
\mathrm{DD}_{\text{aberto}} = -\min_{t}\;F_tSimples no papel, cheio de armadilha na prática. Três erros me ensinaram isso, e todos os três inflavam ou distorciam o risco:
- O lado das operações vinha invertido em 54 mil trades, porque o dado dizia “Compra” e “Venda” em português e o meu código lia em inglês. Um detalhe de idioma que trocava o sinal de tudo.
- Casar as ordens por ordem de chegada (FIFO) dava 65% de erro até no EURUSD, porque o MT5 fecha posição por ticket, não pela primeira que abriu. Tive que reconstruir o preço de entrada de cada posição a partir do lucro dela, do lado, do lote e do valor do pip. Para provar que a reconstrução estava certa, comparei a entrada reconstruída com a entrada real registrada: bateu em 0,0000%, e não é tautológico, porque uma usa o lucro e a outra usa o preço gravado, são caminhos independentes.
- Marcar cada robô no seu próprio pior preço ao mesmo tempo é fisicamente impossível: seria um comprado no fundo do dia e um vendido no topo, no mesmo instante. Corrigir para um preço por par derrubou o pior saldo aberto de −1.569 para −1.043 dólares.
Teve ainda uma sutileza que parece pedantismo e não é. O saldo aberto tem que ser medido em valor bruto, porque a posição ainda não fechou e a corretora ainda não cobrou a comissão. O resultado fechado, esse sim, é líquido. Quando eu validei a máquina nos robôs de tendência, sobrou um resíduo de 4,1%, e ele era exatamente a comissão: o Profit fechado já vinha líquido, o flutuante vinha bruto, e bruto é o número certo para o que está aberto. Validei tudo com 30 testes de unidade com valores na mão, incluindo o que prova a correção mais importante: um hedge comprado e vendido no mesmo tamanho tem que dar exatamente zero de flutuante, não um número qualquer.
O grid é uma curva suave pontuada por buracos
O vilão do risco em aberto tem nome: o grid. Por construção, ele abre posições e segura, somando ordens enquanto espera o preço voltar. Enquanto ele segura, nada fecha, então o resultado fechado fica parado e bonito, e o saldo aberto vai afundando em silêncio. Um dos meus grids, o CAD-M4b, teve 89 dias de ganho, somando cerca de +511 dólares, contra apenas 10 dias de perda, de −139 no total. Nas estatísticas de trades fechados ele parece quase perfeito. Mas é justamente essa suavidade que esconde o buraco: o risco dele mora nos poucos dias em que a posição aberta vai fundo, e esses dias não aparecem na curva de fechados.
Na medição, o flutuante dos grids chega a algumas centenas de dólares no pior dia, bem mais que o dos robôs de tendência, que é menor. É por isso que o grid manda no drawdown em aberto do portfólio inteiro. A pesquisa acadêmica diz a mesma coisa de outro jeito. Taranto (2022) descreve o grid como uma estratégia “estruturalmente sobrevivível, mas não segura”: uma curva de capital suave, pontuada por picos catastróficos, em que o último pico pode zerar a conta. Medir o flutuante é justamente enxergar esse pico antes que ele chegue, em vez de descobrir na margem.
O pior dia não foi o que todo mundo achava
Quando rodei a série inteira, o resultado contrariou a intuição, a minha inclusive. Eu esperava que o pior saldo em aberto fosse no carry-unwind do iene, em agosto de 2024, o evento de cauda mais famoso do período. Não foi. Naquele episódio o pior aberto foi cerca de −680 dólares. O fundo de verdade, −1.043, veio em janeiro de 2026, num período sem manchete nenhuma.
Essa é uma lição que vale além do meu portfólio. O risco de cauda nem sempre mora onde está a crise óbvia. Ancorar a defesa no único evento dramático que você lembra é um erro, porque o pior pode vir de um acúmulo silencioso de posições abertas na mesma direção, sem nenhum estopim espetacular. Foi exatamente o que a IA externa que me ajudou na auditoria errou: ela supôs que o aperto viria do iene, e o dado mostrou que veio de um mês comum. O número que governa a margem é o saldo aberto, e ele tem vida própria, descolada das crises que viram notícia.
O segredo é o saldo aberto que se compensa
Aqui está a parte que de fato move a seleção. O ideal é juntar robôs cujo saldo aberto se cobre. Imagine um grid com −200 dólares em aberto exatamente enquanto um robô de tendência está com +170 em aberto: o impacto real na margem naquele instante é de só −30. É essa compensação ao longo do tempo que eu quero maximizar. No meu portfólio, o pior saldo aberto do grid sozinho foi cerca de −892 dólares, o do conjunto de tendência cerca de −604, e se os dois afundassem no mesmo dia o portfólio veria −1.496. Mas o pior combinado real foi −1.043, porque eles nem sempre estão no fundo ao mesmo tempo. Essa diferença, cerca de 30%, é a compensação do flutuante.
Repare na diferença para o capítulo dois. Lá eu olhava a correlação dos resultados fechados. Aqui o que importa é a correlação do saldo aberto, e as duas não são a mesma coisa. Dois robôs podem fechar resultados decorrelacionados e mesmo assim ficar ambos no vermelho aberto ao mesmo tempo. A seleção certa olha o flutuante simultâneo, não o fechado.
A folga de 30% é uma ilusão de era calma
Agora a parte honesta, e ela é grande o suficiente para mudar a conclusão. Essa compensação de 30% foi medida numa janela calma, e eu fui checar se ela era um hedge de verdade ou só sorte de calendário. Medi a correlação diária entre o flutuante do grid e o flutuante dos robôs de tendência: deu +0,06, ou seja, praticamente zero. Nunca houve hedge nenhum entre eles. Os 30% de folga apareceram só porque, naquela janela específica, eles não bateram o fundo nos mesmos dias. Foi calendário, não estrutura.
E calendário não se sustenta num co-crash. Quando o mercado vira de verdade, tudo desce junto, a correlação vai para perto de um, e a compensação evapora. Se eu somo as pernas com correlação igual a um, o pior caso não é −1.043, é perto de −2.400, e somando os piores dias de cada perna pode passar de −3.800. Por isso eu não dimensiono o teto de risco pelos −1.043 da era calma. Dimensiono contra o co-crash. A folga de calendário é bônus quando aparece, nunca premissa de proteção.
Por que o pior ponto não é a régua
Um cuidado de método que eu aprendi a respeitar. O pior ponto da série é um único dia, e otimizar em cima de um único dia é ajustar a um ponto que pode ter sido só azar, o mesmo erro de usar o drawdown máximo que eu critiquei no capítulo dois. Então eu não seleciono robô para minimizar o pior dia. Eu olho a distribuição inteira do saldo flutuante e a compensação ao longo do tempo. Essa distribuição diária ficou assim: na mediana, −136 dólares; no percentil 95, −582; no percentil 99, −804. O pior ponto, −1.043, entra como uma checagem de restrição com folga, porque o que eu ainda não vi, um 2008 ou um 2020, é mais fundo do que tudo isso.
O que isso mudou na montagem, e o próximo capítulo
Quando eu somei o saldo aberto do conjunto inteiro de robôs candidatos, ele passava de 3.000 dólares no pior momento, contra um teto de risco bem menor. Isso virou a restrição que de fato manda na montagem. Não é o resultado fechado que decide quantos robôs cabem, é o drawdown em aberto simultâneo. E o número certo de olhar não é nem o aberto isolado nem o fechado isolado, é a conta inteira, realizado mais flutuante numa curva só, que é o que a corretora enxerga. Se eu perco 100 dólares em trades fechados e fico com 600 de prejuízo flutuante ao mesmo tempo, a conta está em −700 e a margem quebra, mesmo que cada parte sozinha parecesse suportável. A partir daqui, a montagem passou a ser feita em cima desse número. No próximo capítulo eu mostro a metodologia inteira, a esteira, que pega uma leva grande de robôs e entrega o portfólio final cabendo nesse teto, sem seleção a dedo.
Acompanhe a série para não perder. O próximo sai em poucos dias.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre drawdown fechado e aberto?
O drawdown fechado é a maior queda da curva de trades já encerrados, que é o que o relatório de backtest mostra. O drawdown em aberto é a maior queda da soma das posições ainda abertas, marcadas a mercado. É o aberto que consome margem e pode quebrar a conta, mesmo com o resultado fechado positivo, porque a corretora olha a conta inteira, realizado mais flutuante.
Por que o grid domina o risco em aberto?
Porque o grid abre posições e segura, somando ordens enquanto espera o preço voltar. Nesse meio-tempo nada fecha, então a curva de fechados fica suave e o saldo aberto afunda em silêncio. Um dos meus grids teve 89 dias de ganho contra 10 de perda e ainda assim carregava o maior risco em aberto do portfólio. É a curva suave pontuada por buracos que a literatura de grid descreve.
O que é a compensação do flutuante, e dá para confiar nela?
É o quanto o saldo aberto de robôs diferentes se cobre ao longo do tempo, porque nem sempre afundam no mesmo dia. No meu portfólio valeu cerca de 30%. Mas a correlação diária entre os flutuantes era de só +0,06, então essa folga era de calendário, não um hedge estrutural. Num co-crash a correlação vai para perto de um e a folga evapora, por isso o teto de risco é dimensionado contra o co-crash, não contra a era calma.
O pior dia define o teto de risco?
Não. O pior dia é um único ponto e otimizar nele é ajustar ao acaso. O certo é olhar a distribuição inteira do saldo flutuante, como o percentil 95, e a compensação ao longo do tempo, tratando o pior ponto apenas como uma checagem de restrição com folga, já que o evento ainda não visto costuma ser mais fundo.
Referências
- Chekhlov, A.; Uryasev, S.; Zabarankin, M. (2005). Drawdown Measure in Portfolio Optimization. International Journal of Theoretical and Applied Finance, 8(1), 13-58. O drawdown como medida de risco de portfólio.
- Brunnermeier, M. K.; Pedersen, L. H. (2009). Market Liquidity and Funding Liquidity. Review of Financial Studies, 22(6), 2201-2238. Como a margem e o financiamento das posições abertas, não o resultado fechado, disparam a espiral de risco.
- Taranto, A. (2022). Bidirectional Grid Constrained Stochastic Processes. PhD Thesis, University of Southern Queensland, DOI 10.26192/q7q62. O grid como processo estruturalmente sobrevivível, porém não seguro.
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Quem escreve: Flávio Araújo
Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube
