Quanto drawdown é normal num robô de trading: medi os mesmos 54 robôs em duas contas

Nenhum percentual de drawdown vale para todo robô. Medi os mesmos 54 robôs em duas contas, uma de US$ 9.866,82 e outra de US$ 1.000,19, e o mesmo tombo em dólar ocupa 9,86 vezes mais da conta menor.

Resposta rápida. Quanto drawdown é normal num robô de trading? Nenhum percentual vale para todo robô. No meu método, o drawdown normal de um robô é o que cabe no teto em dólar que o Monte Carlo do próprio teste dele mostra, e o percentual desse teto depende do tamanho da conta. Na minha carteira de 54 robôs no lote 0,01, o pior drawdown da conta simulada pela série gravada foi de US$ 207,48 em 50,8 dias, que são 2,10% de US$ 9.866,82. O mesmo valor em dólar ocuparia 20,74% de uma conta de US$ 1.000,19, ou 9,86 vezes mais.

Drawdown é a maior queda do patrimônio da conta, de um pico até o fundo seguinte, antes de um pico novo. Em dólar, ele é do robô. Em percentual, ele é também da conta, e é nesse ponto que as faixas prontas falham. Um guia em inglês da TakeProfit, atualizado em 4 de abril de 2026, dá uma faixa fixa: para a pessoa física, 15% a 25% de drawdown máximo é geralmente aceitável. Uma faixa dessas só vale quando a posição cresce e encolhe junto com a conta, e com lote fixo de 0,01 isso não acontece. Eu medi a mesma carteira em duas contas, as do capítulo 19 do Diário. Com o mesmo lote, o mesmo drawdown em dólar ocupa 9,86 vezes mais da conta menor. É só aritmética. Dá para conferir com uma divisão.

O que a pesquisa mostra: Magdon-Ismail, Atiya, Pratap e Abu-Mostafa (2004) estudaram o drawdown máximo de um movimento browniano com deriva, o modelo de um preço com tendência média e ruído em volta, e calcularam o comportamento do drawdown máximo esperado quando o tempo de observação T cresce: logarítmico com deriva positiva, raiz quadrada de T com deriva zero e linear com deriva negativa (Journal of Applied Probability, 41(1), 2004).

O que o drawdown mede, do pico ao fundo

Patrimônio é o saldo da conta mais o resultado das posições abertas. Eu calculo o drawdown em percentual como o pico menos o fundo, dividido pelo saldo-base da conta, o valor com que a medição começou, vezes 100. O numerador é o prejuízo em dólar entre os dois pontos. O denominador é a conta. O robô e o lote só aparecem no numerador, e o tamanho da conta só aparece no denominador.

A medida tem duas propriedades. A primeira é que o drawdown pertence a um período, porque o fundo só existe depois de passar, e uma leitura do painel num instante responde outra pergunta, quanto a conta está caindo agora. A segunda é que o prejuízo em dólar depende do que os robôs operam e do tamanho da posição, e o percentual herda isso dividido pela conta.

Por que o mesmo drawdown em dólar muda de percentual com o tamanho da conta

Os mesmos 54 robôs, 15 grids e 39 estratégias do StrategyQuant X, rodam no lote 0,01 na conta simulada de US$ 9.866,82 (de 14/07 a 03/09/2026, 50,8 dias) e na conta real de US$ 1.000,19 (desde 03/09/2026), as duas na Tickmill. Com o lote igual, e fora diferenças de execução entre as contas, cada posição ganha e perde os mesmos dólares nas duas, e a mesma sequência de operações produz o mesmo drawdown em dólar. A conta real tem 10,14% do tamanho da simulada, então o denominador encolhe e o percentual cresce 9,86 vezes. O lote mínimo é 0,01. Eu não consigo diminuir a posição junto com a conta.

A série gravada do painel marcou o pior drawdown da era simulada em US$ 207,48, em 21 de agosto de 2026, às 12:00 UTC. A reconstrução diária, que refaz cada dia útil com barras de 5 minutos, deu US$ 227,51 no mesmo dia. A diferença de US$ 20,03 vem do método: a série guarda uma amostra por hora fora das últimas 24 horas e pode perder o minuto exato do fundo, e a reconstrução soma o pior prejuízo aberto de cada par mesmo quando os fundos vieram em horas diferentes.

Medida do pior drawdown, 21/08/2026 Valor em dólares Na conta simulada (9.866,82 dólares) Na conta real (1.000,19 dólares)
Série gravada 207,48 2,10% 20,74%
Reconstrução diária 227,51 2,31% 22,75%

Pra você ter uma noção, os US$ 227,51 que ocuparam 2,31% da conta simulada ocupariam 22,75% da real. O dólar é o mesmo. Muda só a conta.

O que o teste do próprio robô diz ser normal

Para um robô, o normal é o drawdown que fica abaixo do teto que o teste dele mostrou. Eu uso o Monte Carlo do StrategyQuant X, que sorteia com reposição as operações do backtest em 500 caminhos e mede o drawdown que só 5% deles ultrapassam, o percentil 95. Chamo esse valor de teto. Cada caminho reamostra o histórico inteiro de operações do robô, que, no robô de US$ 94,59, cobre de 2019 a 2026.

Nos sete primeiros robôs da série Anatomia de um Robô do Portfólio, publicados de 25 de setembro a 9 de outubro de 2026, o teto vai de US$ 94,59, na Strategy 7.5.48 (EUR/USD), a US$ 208,01, na Strategy 6.9.62 (GBP/USD). Os outros cinco ficam em US$ 124,71, 128,77, 133,50, 162,51 e 177,86. O maior teto é 2,20 vezes o menor. Em percentual, o mesmo intervalo vai de 0,96% a 2,11% da conta simulada e de 9,46% a 20,80% da real.

O teto de um único robô chega a 20,80% da conta real. O maior, US$ 208,01, é quase igual ao pior drawdown da carteira inteira na simulada, US$ 207,48, e as janelas são outras. O teto cobre o backtest inteiro. O drawdown da carteira cobre 50,8 dias, e as duas medidas não se comparam.

Barras do mesmo valor em dólar dividido pela conta: na simulada de 9.866,82 dólares (verde) 0,96%, 2,10% e 2,11%; na real de 1.000,19 dólares (vermelho) 9,46%, 20,74% e 20,80%, para os valores de 94,59, 207,48 e 208,01 dólares, que são o menor teto de robô, o pior drawdown da carteira e o maior teto de robô.

Os 54 robôs juntos: o drawdown de dois meses da carteira

A carteira tem uma distribuição própria. Em 122 janelas rolantes de 60 dias do backtest de 2024 a 2026, o drawdown dentro de cada janela teve mediana de US$ 258, percentil 75 de US$ 354 e percentil 95 de US$ 439. Esse trecho vem depois da construção de cada robô, mas foi nele que escolhi os 54, então o número é in-sample e otimista por construção. Na conta simulada, os três valores são 2,61%, 3,59% e 4,45%. Na conta real, são 25,80%, 35,39% e 43,89%.

O mesmo dia, duas leituras: 156 contra 207

Em 21 de agosto de 2026 eu anotei que o pior drawdown da era simulada tinha sido de US$ 156,73. O dia estava certo. O valor estava errado. Quando varri a série gravada, 1.233 leituras desde 14 de julho, o pior instante daquele dia apareceu às 12:00 UTC, com US$ 207,48. O valor real era 32% maior que o anotado.

Hora (UTC) Fechado, em dólares Em aberto, em dólares Drawdown desde o topo, em dólares
09:08 +34,17 −123,33 206,45
12:00 +36,12 −126,31 207,48
13:00 +36,12 −104,30 185,47
16:00 +38,07 −76,96 156,18
17:00 +38,07 −77,24 156,46

Entre 12:00 e 16:00 o prejuízo aberto encolheu US$ 49,35, de 126,31 para 76,96, e o resultado fechado subiu US$ 1,95, de 36,12 para 38,07. A soma dá 51,30. É a diferença entre 207,48 e 156,18. A conta fecha. O 156,73 que anotei não aparece na série gravada. As amostras horárias de 16:00 e 17:00 marcam 156,18 e 156,46, o mesmo patamar.

Na conta de US$ 9.866,82, a leitura errada daria 1,59% e a certa 2,10%, uma diferença de 0,51 ponto percentual. Na de US$ 1.000,19, ela daria 15,67% contra 20,74%, uma diferença de 5,07 pontos. O erro cresce 9,86 vezes.

O US$ 207,48 também é piso, porque um fundo entre duas amostras horárias pode não ter ficado gravado. Magdon-Ismail e coautores calculam que o drawdown máximo esperado cresce com o tempo de observação, e por isso a janela precisa vir escrita ao lado de qualquer percentual.

Por que medir o drawdown em dólar por robô e converter pela conta, e não fixar um percentual universal

Eu, particularmente, prefiro o valor em dólar que o Monte Carlo do próprio robô entrega a reotimizar o robô até o drawdown caber num percentual escolhido antes. São três razões.

A primeira razão é o lote. O lote 0,01 é o piso da corretora, então na conta menor a posição não encolhe e o percentual sobe 9,86 vezes. Um percentual universal pressupõe posição proporcional à conta, e essa proporção não existe aqui.

A segunda razão é o robô. Os sete tetos que mostrei vão de US$ 94,59 a US$ 208,01, uma razão de 2,20. Um limite de 20% aplicado igual a todos ignora o que o teste de cada um já mediu.

A terceira razão é a janela. Pelo resultado de 2004 citado acima, no limite de janelas longas o drawdown máximo esperado cresce com a raiz quadrada do tempo quando o preço não tem tendência. Um percentual sem janela ao lado não tem com o que ser comparado.

Converter é uma divisão. Pego o teto em dólar do robô e divido pelo saldo da conta no começo da medição. Com US$ 208,01 e uma conta de US$ 1.000,19, dá 20,80%. Na simulada, dá 2,11%. Para ver em que tamanho de conta o mesmo teto vira 10%, multiplico por 10, o que dá US$ 2.080,10. É estudo de caso, sem recomendação.

O que esta medição não prova

Cada conta teve um fundo medido. Um fundo é uma observação só. A simulada tem 50,8 dias.

O método muda o número. Na simulada, a série deu US$ 207,48 e a reconstrução US$ 227,51. A reconstrução soma o pior prejuízo aberto de cada par mesmo quando os fundos vieram em horas diferentes, e a série mede o caminho que a conta fez de verdade.

O backtest de 2024 a 2026 é in-sample. Escolhi os 54 robôs nesse trecho, então a mediana de US$ 258 e o percentil 95 de US$ 439 saem otimistas por construção.

O teto é um percentil 95 de reamostragem do backtest, e um robô pode passá-lo. A Strategy 4.4.79 teve no próprio backtest um tombo de US$ 240,45, acima do teto de US$ 177,86, e é a única dos 39 robôs do StrategyQuant X da carteira nessa situação.

O resultado de 2004 vale para um movimento browniano, que é um modelo de preço. Não testei se vale na carteira. Nada aqui recomenda operar nem dimensionar conta. Resultado passado não garante futuro.

Os números deste artigo

Métrica Valor Fonte
Carteira 54 robôs (15 grids e 39 do StrategyQuant X), lote 0,01 Diário, capítulo 19
Conta simulada 9.866,82 dólares, de 14/07 a 03/09/2026 (50,8 dias) Diário, capítulo 19
Conta real 1.000,19 dólares, desde 03/09/2026 Diário, capítulo 19
Razão entre as contas 9,86 vezes 9.866,82 dividido por 1.000,19
Pior drawdown da simulada, série gravada 207,48 dólares (2,10% e 20,74%) Diário, capítulo 17
Pior drawdown da simulada, reconstrução diária 227,51 dólares (2,31% e 22,75%) Diário, capítulo 19
Valor anotado em 21/08/2026 156,73 dólares (1,59% e 15,67%) Diário, capítulo 17
Drawdown de 60 dias da carteira, backtest 2024 a 2026 mediana 258, percentil 75 354, percentil 95 439 dólares 122 janelas, Diário, capítulo 19
Tetos de Monte Carlo de sete robôs 94,59 a 208,01 dólares (percentil 95) Série Anatomia de um Robô do Portfólio, de 25/09 a 09/10/2026

Perguntas frequentes

Qual é o drawdown máximo aceitável num robô de trading?

Na minha carteira, cada robô tem o seu: o teto de Monte Carlo do teste dele, em dólar, convertido pela sua conta. Nos sete primeiros robôs da série Anatomia de um Robô do Portfólio, publicados até 9 de outubro, o teto vai de US$ 94,59 a US$ 208,01, que são 9,46% e 20,80% de uma conta de US$ 1.000,19. Esse limite é decisão sua. O texto mostra a conta, sem recomendar número.

Drawdown de 20% é normal num robô?

Um drawdown de 20% vale US$ 200 numa conta de mil dólares e US$ 2.000 numa de dez mil, então só dá para julgar com o valor em dólar e a janela ao lado. O mesmo US$ 207,48 da minha carteira foi 2,10% numa conta e seria 20,74% na outra.

Por que o drawdown medido na conta pode diferir do drawdown do backtest?

Nos meus dados aparecem duas causas de diferença: duas leituras do mesmo dia divergiram, 156,73 contra 207,48 (32% de diferença), e o backtest de 2024 a 2026 é in-sample, escolhido no mesmo trecho em que montei a carteira, então sai otimista por construção. Na simulada, o pior drawdown ficou abaixo da mediana do backtest, 227,51 contra 258, em 50,8 dias.

Como converto o drawdown em dólar para o percentual da minha conta?

Divida o drawdown em dólar pelo saldo da conta no começo da medição. Com US$ 207,48 e uma conta de US$ 1.000,19 dá 0,2074, ou 20,74%, e com uma conta de US$ 9.866,82 dá 2,10%. Meça a queda no patrimônio, que inclui a posição aberta, e use o mesmo lote do teste.

Referências

  • Magdon-Ismail, M.; Atiya, A. F.; Pratap, A.; Abu-Mostafa, Y. S. (2004). On the maximum drawdown of a Brownian motion. Journal of Applied Probability, 41(1), páginas 147 a 161. doi.org/10.1239/jap/1077134674.
  • Mruk, K. Maximum Drawdown in Trading. TakeProfit, atualizado em 4 de abril de 2026. takeprofitapp.com.
  • Diário de um Portfólio de Robôs, capítulo 19: as duas contas, as duas medidas do pior drawdown e as 122 janelas de 60 dias.
  • Diário de um Portfólio de Robôs, capítulo 17: a série gravada de 21/08/2026 e a correção de 156,73 para 207,48.
  • Anatomia de um Robô do Portfólio, Strategy 7.5.48 e Strategy 6.9.62: os dois extremos dos tetos de Monte Carlo entre os sete robôs da série, publicados de 25/09 a 09/10/2026.

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Quem escreve: Flávio Araújo

Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube

Flávio Araújo
Flávio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

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