Ulcer Performance Index (UPI): A Métrica de Drawdown que o MDD Esconde

O MDD vê só o ponto mais fundo. O Ulcer Performance Index mede submergence (profundidade x tempo debaixo d'água) e dá uma régua mais honesta para ranquear robôs.

O número: O Maximum Drawdown (MDD) é um ponto único — a profundidade do pior vale — e ignora quanto tempo a curva ficou submersa. Rook, Golosovker e Monk (2023), em working paper da Stanford Long-Term Investing, mostram que ações e bonds passaram cerca de 75% do tempo “submersos” abaixo do topo anterior desde 1980 (Treasuries, ~80%). O Ulcer Performance Index (UPI), de Peter Martin (1989), captura justamente o que o MDD esconde: pune profundidade e tempo debaixo d’água ao mesmo tempo.

Quando se compara dois robôs pelo pior dia, geralmente se escolhe o número errado. O MDD é uma fotografia do instante mais doloroso, mas dois sistemas com o mesmo MDD de −20% podem ter experiências radicalmente diferentes: um se recupera em três semanas, o outro fica dois anos no vermelho. O Ulcer Performance Index resolve isso medindo o que importa para quem vive a curva — a integral da dor. Antes de seguir, vale alinhar com o que escrevemos sobre tempo em drawdown, limite de drawdown diário e risco de ruína.

O que o MDD esconde

O Maximum Drawdown reporta um único ponto — a maior queda do topo ao fundo — e nada mais. Ele não diz quantas vezes a curva mergulhou, nem por quanto tempo ficou afundada. Basilico (2023), resenhando o trabalho de Rook, Golosovker e Monk, defende que tratar drawdown e recuperação separadamente distorce a leitura de risco: os dois “se definem mutuamente”. Os autores cunham o termo submergence (submersão) para o evento conjunto — a queda mais a recuperação subsequente — e mostram que ele tem várias dimensões: profundidade, duração, inclinação e frequência.

O dado que cala fundo: desde 1980, ações e bonds ficaram submersos cerca de 75% do tempo, e Treasuries ~80% (Rook, Golosovker & Monk, 2023). Ou seja, estar abaixo do topo anterior não é exceção — é o estado normal. Um MDD de −20% pode ser o mesmo número para uma queda relâmpago que recupera em um mês e para um afogamento lento de dois anos. Para quem precisa aguentar o sistema operando, a segunda situação é incomparavelmente pior — e o MDD não enxerga a diferença.

Curva underwater de drawdown com área negativa vermelha sob a linha de zero, destacando a profundidade e a largura (tempo submerso) que o Ulcer Index integra

O Ulcer Index em texto simples

O Ulcer Index (UI) foi criado por Peter Martin em 1989 (no livro The Investor’s Guide to Fidelity Funds, com Byron McCann) justamente para medir a “úlcera” — o estresse acumulado de ficar debaixo d’água. A fórmula, em palavras: para cada período, calcule o drawdown percentual em relação ao pico máximo já atingido; eleve cada um ao quadrado; tire a média desses quadrados ao longo de toda a série; e por fim a raiz quadrada dessa média.

Em notação simples: UI = raiz( média( D² ) ), onde D é o drawdown percentual de cada período (zero quando a curva está em novo topo). É, na essência, o desvio-padrão dos drawdowns — só que medido em relação ao pico, não à média. Duas propriedades importantes saem disso:

  • O quadrado penaliza quedas grandes desproporcionalmente — um drawdown de −20% pesa quatro vezes mais que um de −10%, não o dobro.
  • A média ao longo do tempo faz o tempo submerso entrar na conta — ficar −5% por 200 dias machuca mais o índice do que ficar −5% por 5 dias.

É exatamente por isso que o UI captura submergence = profundidade × tempo debaixo d’água num único número, enquanto o MDD só registra o ponto mais fundo.

UPI: o “Sharpe do drawdown”

O Ulcer Performance Index (UPI), também chamado de Martin Ratio, transforma o UI numa métrica de retorno ajustado ao risco. A definição: UPI = (retorno do período − retorno livre de risco) / Ulcer Index. É a mesma estrutura do índice de Sharpe — retorno excedente sobre uma medida de risco — mas trocando o desvio-padrão dos retornos pelo Ulcer Index.

A diferença filosófica é grande. O Sharpe pune toda volatilidade, inclusive a volatilidade para cima (que o trader adora). O UPI pune só o que dói: estar abaixo do topo, com peso maior para quedas fundas e prolongadas. Quanto maior o UPI, melhor — mais retorno por unidade de “úlcera”. Para quem opera robôs e precisa não desligar o sistema no fundo do poço, é uma régua mais honesta com a experiência real do que o Sharpe ou o retorno/MDD (Calmar).

Vale contrastar as três réguas mais comuns lado a lado. O Sharpe divide o retorno excedente pelo desvio-padrão dos retornos — mede oscilação, não dor. O Calmar divide o retorno pelo MDD — usa um único ponto no denominador e, como o MDD, é cego ao tempo submerso. O UPI divide o retorno excedente pelo Ulcer Index — o único dos três cujo denominador integra profundidade e duração. Em sistemas que recuperam rápido, UPI e Calmar concordam; é nos sistemas de afogamento lento (mesmo MDD, recuperação arrastada) que o UPI separa o que o Calmar funde. É por isso que ele costuma ser a régua preferida de quem precisa conviver com a curva mês após mês, e não só olhar o resultado final.

Como usar o UPI para ranquear robôs

O UPI brilha na comparação entre estratégias com perfis de drawdown diferentes. Dois robôs com o mesmo retorno anual e o mesmo MDD podem ter UPIs bem distintos — e o de UPI maior é o que passou menos tempo, ou menos fundo, submerso. Um roteiro prático:

  1. Construa a curva de equity de cada robô na mesma janela e na mesma frequência (diária, por exemplo) — comparar períodos diferentes é comparar coisas diferentes.
  2. Calcule o drawdown percentual ponto a ponto contra o pico corrente (running high).
  3. Eleve ao quadrado, tire a média e a raiz — esse é o Ulcer Index.
  4. Divida o retorno excedente pelo UI — esse é o UPI.
  5. Ordene do maior para o menor. O topo do ranking sofre menos por unidade de retorno.

O UPI não substitui o controle de cauda nem o disjuntor de drawdown — ele é uma régua de seleção e ranqueamento, não um gatilho de saída. Combinado com a leitura de tempo em drawdown, ele evita o erro clássico de escolher o robô pelo retorno bruto e descobrir, vivendo, que a curva fica afogada metade do tempo. Na montagem de um portfólio, ranquear por UPI tende a favorecer sistemas com recuperação rápida — exatamente os que o operador consegue manter ligados.

Limites e cuidados

O UPI tem armadilhas que o usuário precisa conhecer. Primeiro, ele é sensível à frequência e à janela: calcular em barras diárias versus mensais muda o número, e janelas curtas com poucos drawdowns o tornam instável. Segundo, como toda métrica baseada em backtest, ele herda os riscos de ruína e de overfitting — um UPI lindo no histórico não garante drawdowns rasos no futuro. Terceiro, a própria pesquisa de Rook, Golosovker e Monk (2023) aponta uma correlação positiva entre tamanho e duração da submersão: drawdowns maiores tendem a durar mais, então as duas dimensões não são independentes — o UI as combina, mas não as desentrelaça. Use o UPI como um dos eixos de decisão, nunca como o único número.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre UPI e índice de Sharpe?

O UPI usa o Ulcer Index no denominador (que pune só drawdowns — profundidade e tempo submerso), enquanto o Sharpe usa o desvio-padrão dos retornos (que pune toda volatilidade, inclusive a de alta). Para quem se importa com a dor de ficar no vermelho e não com oscilação para cima, o UPI é mais alinhado à experiência real do trader.

O que o Ulcer Index mede que o Maximum Drawdown não mede?

O Ulcer Index mede a submersão — profundidade combinada com tempo debaixo d’água — enquanto o MDD registra apenas o ponto único mais profundo. Dois sistemas com MDD idêntico de −20% podem ter Ulcer Index muito diferentes se um recupera rápido e o outro fica afundado por meses.

Como interpretar um UPI alto?

Um UPI alto indica mais retorno excedente por unidade de “úlcera” — ou seja, o sistema entregou ganho sofrendo pouco em drawdown, seja por quedas rasas, seja por recuperações rápidas. Quanto maior, melhor; sempre compare robôs na mesma janela e frequência.

O UPI serve como gatilho de saída de um robô?

Não diretamente — o UPI é uma métrica de ranqueamento e seleção, calculada sobre todo o histórico, não um sinal em tempo real. Para parar um robô em drawdown, use um disjuntor explícito (limite de drawdown diário ou submergence-based exit), e reserve o UPI para decidir qual robô colocar no ar.

Referências

Presente para Leitores: Robô de Gradiente Linear Gratuito

Estou liberando o acesso ao meu setup pessoal de Gradiente Linear sem custo nenhum. É só clicar e me pedir o arquivo.

Quero meu Robô Gratuito
🔒 Acesso Direto no WhatsApp
⚠️ Aviso de risco: O conteúdo do Invista Já é educacional e informativo sobre algotrading e estratégias quantitativas e não constitui recomendação ou consultoria de investimento, nem oferta ou solicitação de compra ou venda de qualquer ativo. Operações no mercado financeiro envolvem risco de perda, inclusive do capital investido, e resultados passados não garantem resultados futuros. Avalie seu perfil de risco e, se necessário, consulte um profissional certificado antes de investir.
Flavio Araújo
Flavio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

Artigos: 158