Atualizado em 09/08/2026
O número: no Termômetro Brasil, o painel diário que eu publico com WIN e WDO, o VIX entra como badge de regime em três faixas que eu mesmo calibrei: calmo abaixo de 15, normal de 15 a 25, estresse acima de 25. Nas quatro edições entre 29 de junho e 7 de julho de 2026 o badge marcou 17,6, depois 16,5, depois 16,1 e depois 18,1. Tudo dentro da faixa normal. No mesmo período a correlação de 60 dias do WIN com o VIX ficou entre −0,35 e −0,43, e a do WDO com o VIX entre +0,36 e +0,38. Bolsa cai quando o medo sobe. Dólar sobe junto com ele. O badge resume esse par, nível e correlação, num canto da imagem todo dia.
Eu uso o VIX em dois lugares do meu processo, todos os dias, e o primeiro é o badge de regime do relatório diário, com os cortes em 15 e em 25 fixos no código. O segundo é a pergunta que eu faço antes de olhar qualquer estatística do meu portfólio de robôs: o mercado lá fora está cobrando caro pelo seguro ou está dando seguro de graça? A resposta muda o quanto eu confio nas correlações que eu medi em dia calmo. Quase tudo que se lê sobre o índice em português fica no apelido de “índice do medo” e numa tabela de faixas copiada de algum lugar, sem dizer o que a conta faz nem o que muda na mesa depois que o número aparece na tela.
Duas honestidades antes de qualquer coisa. A primeira você já ouviu. Volatilidade implícita prevê volatilidade, e prevê razoavelmente bem, mas prevê zero de direção. A segunda dói mais, e é a razão de este artigo existir. Quando eu separei os 32 piores dias do meu livro de trades, os dias de onde saiu 354% do rebaixamento, a correlação diária entre os robôs quase não se mexeu. Foi de 0,06 para 0,08. Eles perderam juntos com o co-movimento diário parado embaixo. É essa parte que muda o tamanho da posição que eu levo para casa, e ela fica de fora de toda tabela de faixas de VIX que se lê por aí. Os números aparecem todos abaixo, com a janela e o n.
O que a pesquisa mostra: Robert Whaley, o pesquisador que desenhou o índice original para a Cboe, mostrou que o VIX sobe muito mais quando o mercado cai do que desce quando o mercado sobe. O mecanismo é de fluxo. Na queda, quem tem posição comprada corre para a mesma put ao mesmo tempo, quem vende a opção cobra mais para assumir aquele risco, e a volatilidade implícita que sai desse preço sobe junto. Foi esse comportamento assimétrico que deu ao índice o apelido de “índice do medo” (Whaley, 2000).
O VIX mede o preço do seguro, calculado a partir das opções do S&P 500
O VIX é a volatilidade esperada de 30 dias do S&P 500, extraída dos preços das opções de compra e de venda sobre o índice, numa faixa larga de strikes. A metodologia oficial da Cboe agrega esses preços com pesos que replicam a exposição de um swap de variância, e o resultado sai anualizado em pontos percentuais, então um VIX em 20 quer dizer que o mercado de opções está precificando algo perto de 20% de volatilidade anualizada para o S&P nos próximos 30 dias. Direção não entra nessa conta.
A leitura que mais me serve vem de Robert Whaley, o pesquisador que desenhou o índice original para a Cboe, e está no artigo “The Investor Fear Gauge” (Journal of Portfolio Management, 2000), onde ele mede a assimetria e explica de onde ela vem. O índice mede quanto os participantes estão dispostos a pagar por proteção agora, e esse preço carrega informação sobre o estado do mercado que a cotação do S&P à vista não carrega. Por isso o apelido pegou.
Duas limitações vêm junto com o número. As duas mudam o uso. O VIX olha 30 dias à frente como média, então ele descreve o clima do mês, e mesmo assim de forma enviesada para cima: o prêmio de risco de variância embutido no preço das opções deixa a implícita acima da volatilidade que de fato se realiza, na média. E para o dia seguinte ele serve mal. Quem quer o horizonte de um dia trabalha melhor com modelos da família GARCH sobre a volatilidade realizada, que foi o exercício que eu fiz no artigo sobre modelos GARCH de volatilidade. Os dois medem coisas diferentes e cabem juntos: o GARCH estima a volatilidade dos próximos dias a partir da que já aconteceu, com peso maior nos dias recentes; o VIX lê o preço que o mercado está pagando hoje pela proteção dos próximos 30 dias.
A régua que eu uso no relatório diário: calmo abaixo de 15, normal de 15 a 25, estresse acima de 25
O Termômetro Brasil sai como imagem de story, com dois cartões grandes de WIN e WDO e, no cabeçalho do painel, o badge do VIX com o nível do dia e a classificação. A régua é minha e está fixa no código do relatório: abaixo de 15 é CALMO, de 15 a 25 é NORMAL, acima de 25 é ESTRESSE. A convenção de mesa usa 20 e 30. Escolhi mais apertado porque prefiro alarme que dispara cedo, e um VIX cruzando 25 costuma vir acompanhado de gap e de range esticado no WIN antes de a manchete chegar. O preço de disparar cedo demais é abrir o painel com calma num dia que não precisava disso. O preço de disparar tarde é maior.
Um detalhe do pipeline diz muito sobre como eu trato o índice. Na configuração do relatório o VIX está marcado como gauge, e por isso ele fica fora do gráfico normalizado de preços, porque um salto de 16 para 35 comprimiria WIN, minério e S&P numa faixa fina do eixo e a comparação de trajetória perderia a leitura justamente no dia em que ela interessa. O que o índice alimenta é a tabela de correlação de 60 dias e o badge. Nível e variação, nada de curva.
E o que muda em cada faixa? No calmo, nada de especial. Os sistemas rodam no tamanho normal e o relatório trata o dia como dia de fluxo local. A edição de 30 de junho de 2026 mostra por quê. A correlação de 60 dias do WIN estava em +0,78 com o Itaú, +0,54 com o cobre, +0,53 com o S&P 500 e −0,35 com o VIX, ou seja, num dia desses quem explica o mini índice é banco e commodity aqui dentro. O preço do seguro lá fora entra depois na fila. No normal, que é onde o índice passa a maior parte da vida, o badge vira contexto para o texto do dia: um VIX em 17 subindo dois pontos na semana conta uma história diferente de um VIX em 17 que caiu de 24. No estresse o badge vira aviso de gestão. É aí que entra a parte que me custou mais caro para aprender.
No meu walk-forward de cinco dobras, o regime decidiu qual família de robô ganhou dinheiro
Quando rodei o walk-forward do meu processo de montagem de portfólio, foram cinco dobras crescendo no tempo entre 2019 e 2026, cada uma escolhendo os robôs numa era e medindo o resultado na era seguinte, com 300 sorteios aleatórios por dobra servindo de controle. A variável que mais decidiu o resultado de cada dobra foi o regime do período, e o regime trocou de vencedor mais de uma vez ao longo dos sete anos. O vaivém de 2025 e 2026, aquele mercado que estica, reverte e estica de novo sem sustentar tendência, puniu a regra simples de seguir tendência e poupou os sistemas de grid, que trabalham com preço indo e voltando dentro de uma faixa. Em 2022 aconteceu o oposto. Com tendência forte e prolongada no dólar, o grid ficou segurando posição contra o movimento enquanto a seguidora de tendência ganhava solta.
O código dos dois sistemas ficou igual do primeiro ao último dia do teste, e o que mudou foi a fase do mercado, porque cada fase favorece a mecânica de uma família e trabalha contra a da outra. Foi por isso que eu troquei a minha pergunta. Hoje ela é em que regime estamos e qual mecânica esse regime favorece, e o raciocínio inteiro está no artigo sobre filtro de regime de mercado.
O VIX é uma das leituras desse regime. Eu escolho a palavra com cuidado: uma. Ele mede o estado de estresse do mercado americano de ações, que contamina o resto do mundo com defasagem curta, e por isso ele descreve o ambiente em que os meus robôs operam, mas não me diz se o EURUSD vai entrar em tendência na semana que vem. Um filtro de regime pendurado numa variável só herda toda a fragilidade daquela variável, e o meu portfólio é de Forex, com o fator dólar respondendo pela maior parte do risco. No meu uso o índice responde uma pergunta mais modesta e bem mais confiável: o ambiente global está cobrando caro pelo seguro ou está dando seguro de graça?
VIX alto é o aviso de que a diversificação de dias calmos deixa de valer
A conexão que eu considero mais valiosa entre o VIX e um portfólio de robôs veio de um teste nas minhas próprias trade-lists, contado em detalhe no artigo sobre spillover de volatilidade entre mercados. Eu tinha sistemas de grid e de tendência no mesmo par, com correlação diária entre 0,06 e 0,08. No papel, dois sistemas independentes. Separei os 32 piores dias do livro, cerca de 5% da amostra de 2024 a 2026. Depois comparei com o resto. Nesses 32 dias o resultado combinado foi de −$74, contra +$246 somando todos os dias normais. O rebaixamento se concentra do mesmo jeito, e mais forte: 354% dele saiu dessa fatia de 5%, e o número passa de 100% porque os outros 95% dos dias somaram a favor e cobriram parte da perda acumulada.
Aqui entra o achado que mudou o meu jeito de olhar correlação. Eu tinha uma hipótese, vinda de uma análise externa do portfólio, de que a correlação diária entre os robôs explodiria para perto de +1 nos dias de cauda. Então eu fui medir. O co-movimento diário quase não se mexeu: os robôs de iene saíram de 0,06 para 0,08 nesses dias, e mesmo assim eles perderam juntos, com a correlação diária baixa do começo ao fim da janela, porque o que eles compartilhavam era um viés direcional acumulado ao longo de duas semanas. O salto de co-movimento nunca apareceu. Uma matriz de correlação diária mede complementaridade mecânica e passa longe do fator macro compartilhado. É essa diferença que decide se o portfólio aguenta.
O segundo achado desmontou uma história que eu mesmo contava. Eu tratava o carry-unwind do iene de agosto de 2024 como o evento que define a cauda do meu livro, aquele episódio em que o iene se fortaleceu de uma vez, o USDJPY caiu de 161 para 141 e as posições montadas para ganhar com o juro baixo no Japão foram desmontadas em bloco. Fui conferir dia a dia. Só 2 dos 32 dias de cauda caem dentro daquela janela, e o pior dia isolado de todo o período foi 21 de abril de 2025, com −$741, bem longe do unwind. O livro perde dinheiro mais ou menos uma vez por mês em qualquer regime de iene forte. Calibrar a defesa olhando só para agosto de 2024 seria ajustar o seguro a um evento único, que é o mesmo erro de sobreajuste que eu combato na estratégia, aplicado agora ao risco.
Teve ainda um número meu que não sobreviveu à revisão, e eu registro porque ele mudou uma regra do meu processo. Eu tinha reportado um Sharpe de −39 nos dias de cauda, e ele estava anualizado por raiz de 252 em cima de uma janela de 32 dias, o que inflou a leitura umas 16 vezes. O número honesto é o Sharpe diário: +0,24 no livro inteiro, +0,42 nos dias normais e −2,46 nos dias de cauda. Continua cauda gorda. O tamanho dela cabe num limite de perda em dinheiro. A regra que ficou é não reportar Sharpe anualizado de janela curta.
É essa a função de gestão do badge de estresse. Quando ele acende, eu paro de confiar na correlação histórica entre os meus sistemas, porque essa correlação foi medida majoritariamente em dia calmo e ela descreve mal o comportamento do livro quando o fator comum aparece. O que eu faço com o aviso passa pelo controle de risco em dólares, o disjuntor de rebaixamento do portfólio, e um liga-desliga automático pendurado no nível do índice ficou fora dos meus testes por um motivo medido: volatilidade implícita alta anuncia range largo, e range largo também produz os melhores dias do grid. Cortar tudo no VIX alto teria levado embora parte dos meus melhores resultados junto com os piores.
Falta registrar o que o VIX não resolveu. Nenhuma leitura de regime protege de preço que pula níveis sem negociar, e foi isso que aconteceu no unwind: o mercado abriu do outro lado sem imprimir os preços do meio, então um gatilho intradia colocado no caminho não teria tido em que disparar. O gap de domingo passa por baixo de qualquer gatilho, porque o mercado está fechado enquanto o preço se desloca, e a defesa que funciona nesse cenário é o tamanho da posição que você levou para casa. Tem também o limite da própria medição: a janela de 2024 foi rodada em tick sintético, porque a corretora só tem tick real a partir de 2025, e tick sintético interpola o que na vida real foi um salto, então a perda daquele evento provavelmente foi pior que a que eu medi. E tem o limite honesto do meu uso do índice. Eu não medi o nível do VIX em cada um daqueles 32 dias, o índice descreve o mercado americano de ações enquanto o meu livro é de Forex com o fator dólar dominando o risco, então tratar o badge como filtro de entrada do portfólio seria esticar o indicador muito além do que eu tenho medido.
Contango e backwardation: a estrutura a termo completa o que o nível não diz
Tem uma camada acima do nível. O VIX à vista convive com uma curva de futuros de VIX, e o formato dessa curva carrega informação própria: em mercado tranquilo ela fica em contango, com os vencimentos longos acima do à vista, porque incerteza distante custa mais que incerteza próxima. Em estresse agudo a curva inverte, o que o mercado chama de backwardation, e o preço da proteção para agora fica acima do preço da proteção para daqui a seis meses. Eu leio essa inversão como sinal mais confiável que um corte fixo de nível, porque ela é relativa por construção e se ajusta sozinha ao patamar de volatilidade da época, e por isso um VIX em 22 com a curva invertida me preocupa mais que um VIX em 28 com curva normal em processo de queda. No badge diário eu fico no corte de nível, porque o badge tem que ser lido de relance num story. A curva entra depois do alarme. Como a estrutura a termo funciona por dentro, e por que ela corrói um ETF de volatilidade como o VXX ao longo do tempo, está no artigo sobre estrutura a termo do VIX.
Os números deste artigo
| Métrica | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Faixas do badge de regime | 15 / 25 | Calmo, normal e estresse no Termômetro Brasil |
| VIX nas edições de 29/06 a 07/07/2026 | 16,1 a 18,1 | Quatro edições, todas dentro da faixa normal |
| Correlação WIN x VIX (60 dias) | −0,35 a −0,43 | Bolsa cai quando o medo sobe |
| Correlação WDO x VIX (60 dias) | +0,36 a +0,38 | Dólar sobe junto com o medo |
| Correlação WIN x Itaú (30/06/2026) | +0,78 | Fluxo local domina em dia calmo (S&P 500: +0,53) |
| 32 piores dias do livro (5% da amostra, 2024 a 2026) | −$74 contra +$246 | E 354% do rebaixamento saiu desses dias |
| Correlação entre os robôs nos dias de cauda | 0,06 para 0,08 | O co-movimento diário não subiu |
| Pior dia isolado do período | −$741 | 21/04/2025, fora da janela do unwind de ago/2024 |
| Sharpe diário nos dias de cauda | −2,46 | Contra +0,42 nos dias normais e +0,24 no livro inteiro |
VIX alto significa que a bolsa vai cair?
Não. O VIX não tem direção embutida. Ele mede a volatilidade esperada de 30 dias do S&P 500, e níveis altos costumam coincidir com quedas porque a procura por put na queda empurra o prêmio das opções, que é o insumo do cálculo do índice. Vários dos maiores ralis de alívio da história aconteceram com o índice acima de 30. O que um VIX alto indica, na média, é range largo nos dois sentidos.
Quais faixas de VIX usar na prática?
A convenção de mesa trabalha com abaixo de 20 como calmo, 20 a 30 como atenção e acima de 30 como estresse, e no meu relatório diário eu uso cortes mais apertados, calmo abaixo de 15, normal de 15 a 25 e estresse acima de 25, porque prefiro um alarme que dispara cedo demais. O corte exato importa menos que reagir sempre do mesmo jeito quando ele é cruzado, e o meu está fixo no código do relatório para eu não ter como negociar com ele no calor do dia.
O VIX serve para prever a volatilidade de amanhã?
Ele serve mal para isso. É uma média implícita de 30 dias e ainda carrega prêmio de risco de variância, que deixa a leitura acima da volatilidade que de fato se realiza. Para o horizonte de um dia, modelos da família GARCH sobre a volatilidade realizada capturam melhor a dinâmica de curto prazo, incluindo a assimetria de uma queda gerar mais volatilidade que uma alta do mesmo tamanho.
Faz sentido desligar robôs quando o VIX passa de um nível?
Como regra automática e cega, nos meus testes, não. Regime de volatilidade alta trabalha contra umas mecânicas e a favor de outras: range largo derruba a seguidora de tendência e alimenta o grid, então um corte único trataria as duas do mesmo jeito. O uso que sobreviveu aqui é de gestão. VIX em estresse me avisa que as correlações medidas em dia calmo descrevem mal o livro naquele momento, e o corte final fica com o disjuntor de perda em dinheiro, que funciona sem depender de acertar o nível do índice.
Referências
- Whaley, R. E. (2000). The Investor Fear Gauge. The Journal of Portfolio Management, 26(3), 12-17. jpm.pm-research.com.
- Cboe. Volatility Index Methodology: Cboe Volatility Index. cdn.cboe.com.
- Cboe (2021). VIX White Paper Methodology Addendum. cdn.cboe.com.
Presente para Leitores: Robô de Gradiente Linear Gratuito
Estou liberando o acesso ao meu setup pessoal de Gradiente Linear sem custo nenhum. É só clicar e me pedir o arquivo.
Quem escreve: Flávio Araújo
Trader algorítmico há mais de 13 anos, MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Mantém um laboratório próprio que já rodou mais de 20 milhões de backtests e analisou mais de 20 mil estratégias, e opera um portfólio de robôs acompanhado publicamente no blog. LinkedIn · Instagram · YouTube
