Índice de Sentimento Geopolítico: Transformar o Medo das Notícias em Sinal

Transformar guerra, conflito e ameaça em sinal: como montar um índice de medo geopolítico com Google Trends, o que a evidência mostra (Sharpe 0,38) e por que ele serve mais como filtro de risco que como gatilho.

O número: Em estudo da Quantpedia (Desai & Cisar, 2024), um Índice de Sentimento Geopolítico montado a partir de 15 palavras-chave no Google Trends entre jan/2008 e jul/2023 só virou sinal aproveitável quando aplicado à variação de 12 meses sobre o spread small-cap vs. large-cap (IWM−SPY), entregando um Sharpe de apenas 0,38. A hipótese mais “óbvia” — apostar em ETFs de defesa — não passou no teste empírico.

O medo geopolítico aparece nas manchetes muito antes de aparecer nos preços, e isso tenta o quant a transformar guerra, conflito e ameaça em variável de modelo. É um primo da análise de sentimento em trading e do uso de dados alternativos no algotrading, com a mesma promessa e o mesmo risco: o sinal existe, mas é fraco, ruidoso e dominado por eventos raros. Este artigo mostra como construir o índice, o que a evidência diz e por que ele se parece mais com um filtro de risco de cauda do que com uma fonte de alpha.

Como construir um índice de medo geopolítico

Um índice de sentimento geopolítico mede o interesse público por tensão, não o evento em si. Na metodologia da Quantpedia (Desai & Cisar, 2024), o GSI (Geopolitical Sentiment Index) nasce de buscas no Google Trends para 15 termoswar, conflict, military, nuke, weapons, missile, enemy, threat, bomb, army, terrorist, terrorism, warfare, killed, invasion. Como o Google Trends entrega valores relativos ao pico histórico, cada mês precisa ser reescalonado de forma iterativa contra o maior interesse observado até aquela data; depois os termos são promediados para gerar o índice final.

Existe também a alternativa acadêmica consagrada: o GPR (Geopolitical Risk Index) de Caldara & Iacoviello, que conta menções a tensões geopolíticas em jornais. Os dois caminhos compartilham a mesma lógica — quantificar atenção/medo — e a mesma fragilidade: o índice sobe quando o público já reagiu, o que joga o sinal para o lado reativo, não preditivo.

Dois painéis: índice de sentimento geopolítico de buscas no Google Trends com três picos vermelhos em eventos, e o retorno do mercado caindo e revertendo após cada pico

O que a evidência diz sobre medo e retornos

O medo geopolítico afeta os ativos de forma assimétrica, e foi aí que o estudo encontrou o pouco de sinal que existe. A primeira hipótese da Quantpedia — usar o GSI para apostar num spread de ETF de defesa contra um ETF globalfalhou: os autores atribuem o resultado nulo à composição dos ETFs de defesa, que misturam empresas aeroespaciais pouco sensíveis a orçamento militar e diluem o efeito.

O resultado aproveitável veio do prêmio de risco small-cap. Apoiados em literatura que documenta o maior risco das small-caps (Zakamulin, 2011; Hameed, Lof & Suominen, 2022) e a relativa segurança das large-caps em estresse (Ali, 2024), os autores testaram uma estratégia de reversão no spread IWM−SPY: com o GSI subindo, ficam comprados em small-caps (IWM) e vendidos em large-caps (SPY), apostando que a reação inicial reverte quando a tensão se acomoda — e vice-versa. Entre os horizontes testados (1, 3, 6, 9 e 12 meses), só a variação de 12 meses teve resultado significativo, com Sharpe de 0,38.

Usar como filtro de risco, não como gatilho

Um Sharpe de 0,38 não sustenta uma estratégia autônoma, mas pode informar a gestão de risco. A leitura honesta do achado da Quantpedia (Desai & Cisar, 2024) é que o sentimento geopolítico de longo prazo ajuda a explicar a performance relativa entre segmentos do mercado — útil como peso de risco dentro de um portfólio, combinado com sinais macro mais robustos como a curva de juros.

  1. Trate o índice como contexto, não como ordem. Use o GSI/GPR para reduzir exposição ou ativar hedge quando ele dispara, não para abrir posições direcionais.
  2. Prefira horizontes longos. A própria evidência mostrou sinal só na janela de 12 meses; ruído domina o curto prazo.
  3. Valide fora da amostra. Com poucos eventos extremos no histórico (2008–2023), qualquer índice geopolítico é vulnerável a sobreajuste a meia dúzia de crises.

A crítica: ruído, causalidade frágil e eventos raros

O calcanhar de Aquiles do índice geopolítico é estatístico, não conceitual. Três problemas se acumulam: (1) ruído — buscas no Google misturam medo real com curiosidade, memes e cobertura jornalística; (2) causalidade frágil — o mercado precifica risco “quase imediatamente”, como os próprios autores reconhecem ao escolher uma estratégia de reversão em vez de previsão; e (3) eventos raros — o número de choques geopolíticos relevantes em 15 anos é pequeno, então a amostra efetiva é minúscula e o backtest fica refém de poucas datas. É a receita clássica de um sinal que parece bom no histórico e some no real.

Índice de sentimento geopolítico funciona para operar?

Como estratégia isolada, não de forma convincente: no estudo da Quantpedia (Desai & Cisar, 2024), o melhor caso entregou Sharpe de apenas 0,38 na variação de 12 meses do GSI sobre o spread IWM−SPY, e a aposta direta em ETFs de defesa nem chegou a ser significativa. Serve melhor como filtro de risco de contexto do que como gatilho de entrada.

Qual a diferença entre o GSI da Quantpedia e o GPR de Caldara & Iacoviello?

O GSI é construído a partir de buscas no Google Trends (15 palavras-chave, dados de jan/2008 a jul/2023), enquanto o GPR de Caldara & Iacoviello conta menções a risco geopolítico em jornais. Ambos quantificam atenção/medo; o GPR tem histórico mais longo e é amplamente citado na literatura acadêmica.

Por que apostar em ações de defesa quando há tensão não funcionou?

Porque os ETFs de defesa misturam empresas aeroespaciais pouco ligadas a orçamento militar, o que dilui a sensibilidade ao estresse geopolítico — foi exatamente a explicação que os autores deram para o resultado nulo dessa hipótese.

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Flavio Araújo
Flavio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

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