Post-Earnings Announcement Drift (PEAD): O Preço Que Reage Devagar Demais

Após uma surpresa de lucro, o preço continua derivando na mesma direção por semanas. Entenda o PEAD, o SUE e por que essa anomalia clássica encolheu mas não morreu.

O número: Depois de uma surpresa de lucro, o preço não ajusta na hora — ele deriva na mesma direção por semanas. Bernard & Thomas (1989) mostraram que a carteira que compra o decil de maior surpresa e vende o de menor rendeu cerca de 8% a 9% por trimestre (perto de 35% anualizado antes de custos), com o spread positivo em 41 de 48 trimestres entre 1974 e 1985. O custo: a anomalia encolheu com o tempo e vive justamente onde negociar é caro.

O Post-Earnings Announcement Drift (PEAD), ou deriva pós-anúncio de resultados, é uma das anomalias mais antigas e teimosas do mercado de ações — e um caso de estudo perfeito sobre como a vantagem nasce, é documentada e depois decai. Ele é primo direto do momentum de série temporal e da leitura de sentimento, e serve de alerta sobre o que é vantagem estatística real versus ilusão de backtest.

O que é o PEAD e por que ele não deveria existir

O PEAD descreve o fato de que, após uma surpresa de lucro (o resultado divulgado vir acima ou abaixo do esperado), o preço continua se movendo na mesma direção da surpresa por semanas — às vezes por um trimestre inteiro. Em um mercado eficiente, toda a informação do balanço deveria entrar no preço quase instantaneamente. O PEAD diz o contrário: o preço reage devagar demais.

A surpresa é medida pelo SUE (Standardized Unexpected Earnings, ou surpresa de lucro padronizada): a diferença entre o lucro realizado e o lucro esperado (por consenso de analistas ou por modelo de séries temporais), dividida pelo desvio-padrão dessa surpresa. Padronizar é o que importa — uma surpresa de R$ 0,10 significa coisas muito diferentes para uma empresa estável e para uma errática. Ordenando todas as ações por SUE em decis, o decil mais alto (maior surpresa positiva) tende a subir nas semanas seguintes, e o decil mais baixo (maior surpresa negativa) tende a cair.

Retorno acumulado por decil de surpresa de lucro (SUE) ao longo de 60 pregões: decil alto deriva para +2% (verde), decil baixo para -2% (vermelho) e o mediano fica em ~0%.

A evidência seminal: Bernard & Thomas (1989, 1990)

Bernard & Thomas (1989) são o estudo de referência do PEAD. Usando dados de 1974 a 1985, eles documentaram que a carteira de custo zero — comprada no decil de maior SUE e vendida no de menor — gerou retorno anormal de cerca de 8% a 9% por trimestre, o equivalente a aproximadamente 35% anualizado antes de custos de transação. O spread entre o decil de cima e o de baixo foi positivo em 41 dos 48 trimestres da amostra, e até em 11 dos 16 trimestres em que o índice da NYSE caiu — um sinal raro de consistência. A deriva típica das boas (más) notícias rodava em torno de 2% ao longo de 60 pregões.

No ano seguinte, Bernard & Thomas (1990) apertaram o diagnóstico. Eles mostraram que cerca de 25% a 30% de toda a deriva se concentra nas janelas de três dias em torno das divulgações de resultados seguintes — janelas que representam apenas ~5% dos pregões. Isso é uma assinatura de comportamento, não de risco: o mercado parece se “surpreender de novo” com algo que a surpresa anterior já anunciava. A explicação dos próprios autores é que os investidores falham em reconhecer plenamente as implicações do lucro atual para o lucro futuro — uma subreação sistemática.

Por que o efeito encolheu — e onde ele ainda mora

A boa notícia para a teoria de mercado eficiente é que o PEAD decaiu. Onde nos anos 1980 e 1990 o spread entre decis extremos beirava 5%, no fim da década de 2010 ele havia caído para cerca de 3% ou menos. Quanto mais conhecida e arbitrada uma anomalia, mais o capital institucional a comprime — exatamente o ciclo de decadência de alpha que se repete em quase toda vantagem documentada.

Mas o efeito não morreu, e a razão é instrutiva: o PEAD sobrevive justamente onde a arbitragem é difícil. Ele persiste mais forte em ações com custos de transação altos, baixa propriedade institucional, pouca cobertura de analistas e alta volatilidade idiossincrática — todos fatores que travam o ajuste rápido do preço. Pesquisas recentes ainda capturam o efeito: Garfinkel et al. (2024) reportam uma carteira de hedge rendendo 5,1% em três meses, mais de 20% ao ano. O retorno bruto existe; a pergunta de sempre é se sobra algo depois de spread, slippage e capacidade.

A lição para quem desenha estratégias

O PEAD é um espelho de três verdades quantitativas. Primeira: anomalias comportamentais reais existem e são mensuráveis com estatística honesta (o SUE é objetivo, não uma narrativa). Segunda: a vantagem documentada num paper é o teto otimista — ela já vinha decaindo antes mesmo de você lê-la, e os custos comem a margem onde o efeito é maior. Terceira: subreação a informação é um padrão que reaparece em outros lugares — no momentum e na análise de sentimento —, o que sugere uma causa comum (atenção limitada) e um destino comum (arbitragem progressiva).

O PEAD ainda funciona hoje?

O PEAD ainda existe, mas encolheu: de um spread de ~5% entre decis extremos nos anos 1980-90 para ~3% ou menos no fim dos anos 2010. Garfinkel et al. (2024) ainda medem cerca de 20% anualizados numa carteira de hedge, mas o efeito se concentra em ações ilíquidas e caras de negociar, onde custos corroem boa parte do ganho bruto.

O que é SUE na prática?

SUE (Standardized Unexpected Earnings) é a surpresa de lucro padronizada: pegue o lucro realizado, subtraia o esperado (consenso de analistas ou modelo de séries temporais) e divida pelo desvio-padrão histórico dessa surpresa. Padronizar permite comparar empresas de perfis diferentes na mesma escala — quanto maior o SUE, mais “fora do esperado” foi o resultado.

Por que o preço reage devagar em vez de ajustar na hora?

A explicação dominante, já em Bernard & Thomas (1989), é a subreação por atenção limitada: os investidores não reconhecem plenamente o que o lucro atual diz sobre o lucro futuro, então o preço incorpora a notícia em parcelas ao longo de semanas. A concentração de 25-30% da deriva nas janelas de resultados seguintes reforça que é comportamento, não compensação por risco.

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Flavio Araújo
Flavio Araújo

Engenheiro com MBA em Mercado de Capitais e Derivativos. Atua há mais de 10 anos no Mercado Financeiro, com 6 anos dedicados ao Algotrading e estratégias quantitativas. Especialista em validação de robustez e automação de investimentos.

Artigos: 158