A microestrutura de mercado estuda como preços realmente se formam quando você manda uma ordem — e o spread bid-ask é o pedágio que quase ninguém contabiliza direito. Se você projeta robôs, esse custo conversa diretamente com os tipos de execução de ordens, com a forma como você simula slippage e latência e com o seu teste de slippage antes de ir ao real. Estratégias que parecem lucrativas no papel costumam morrer aqui.
O que o spread bid-ask realmente é
O spread bid-ask é a diferença entre o melhor preço de compra (bid) e o melhor preço de venda (ask) disponíveis no livro de ordens. Quem cruza o spread — quem manda uma ordem a mercado — paga essa diferença a cada entrada e a cada saída. A intuição enganosa é tratar o spread como um custo fixo de transporte. Na teoria de microestrutura, ele é o preço que o formador de mercado cobra por três riscos distintos, e cada componente reage de forma diferente à liquidez, à volatilidade e à hora do dia.
O modelo canônico de Glosten & Milgrom (1985) mostrou que o spread existe mesmo sem custos operacionais nenhum: basta o formador de mercado saber que alguns dos que negociam com ele têm informação superior. Já o trabalho de Stoll (1989) e o de Huang & Stoll (1997) formalizaram a decomposição do spread cotado nas três fatias que detalhamos abaixo.
Os três componentes: processamento, inventário e seleção adversa
Os três componentes do spread têm origens econômicas independentes, e entender cada um diz onde o seu custo realmente vai parar.
- Processamento de ordem — o custo operacional de manter cotações, casar ordens e remunerar o formador de mercado. É a fatia mais “mecânica” e a única que cai diretamente quando a concorrência entre provedores de liquidez aumenta.
- Inventário — o formador de mercado que compra de você fica com posição em risco até conseguir revender. Para compensar a exposição direcional, ele alarga o spread, e o alargamento cresce com a volatilidade do ativo. Em Derviz (2002), num mercado de dealership forex, o spread cotado por cada dealer sai justamente da otimização de portfólio sob incerteza, não de uma margem arbitrária.
- Seleção adversa (informação) — o componente que mais machuca o trader sistemático. O formador de mercado sabe que parte do fluxo vem de quem tem informação melhor que a dele; para não ser sistematicamente passado para trás, ele embute um prêmio. Glosten & Milgrom (1985) provaram que esse componente sozinho gera spread positivo mesmo sem custo operacional algum.
A consequência prática é direta: quando você opera um sinal que reage a notícia ou a movimento já em curso, você se parece com o “informado” do modelo — e paga o componente de seleção adversa cheio. Isso conecta o spread ao seu trabalho de monitorar liquidez em algotrading: quanto mais raso o livro, maior o prêmio de informação cobrado.
Spread cotado, efetivo e realizado: três medidas diferentes
O spread cotado é só o ponto de partida, e confundi-lo com o custo real é o erro mais comum em backtests. A microestrutura distingue três medidas, e a diferença entre elas é exatamente onde o dinheiro vaza:
- Spread cotado — ask menos bid no topo do livro. É o que a tela mostra e o que a maioria dos backtests assume. Mede o pior caso teórico, não o que você de fato paga.
- Spread efetivo — duas vezes a distância entre o preço de execução e o ponto médio (mid) no instante da ordem. Captura o fato de que ordens grandes andam no livro e ordens pequenas às vezes pegam preço melhor que o topo. É a medida que mais se aproxima do seu custo de entrada real.
- Spread realizado — compara o preço de execução com o mid algum tempo depois (por exemplo, 5 minutos). Mede o que o formador de mercado de fato embolsou depois que o preço se moveu. A diferença entre o efetivo e o realizado é, por construção, o componente de seleção adversa — quanto o preço andou contra quem deu liquidez.
Para uma estratégia de giro alto, o número que importa é o efetivo, e ele é tipicamente maior que o cotado quando o livro é raso ou a ordem é grande. Modelar custo como meio spread cotado fixo, como aponta a síntese de execução do Quantocracy, é um otimismo perigoso.
Impacto de mercado: o custo que cresce com o tamanho
O impacto de mercado é a parcela do custo que o spread cotado nem chega a mostrar, porque depende de quanto você quer negociar. Cruzar o spread move o preço; ordens maiores que a profundidade do topo “comem” os níveis seguintes do livro e empurram o preço contra você. Esse custo é convexo: dobrar o tamanho mais que dobra o slippage.
Há também uma forte dependência do horário. A análise de Johnsen (Alpha Architect, 2023) sobre quando investidores de ETF devem negociar mostrou que o spread bid-ask varia de cerca de 1 ponto-base até centenas de pontos-base ao longo do dia: é mais largo na abertura (9h30–10h) e no fechamento (15h30–16h), e mais estreito no meio do pregão (10h30–15h). A recomendação prática que sai dali — preferir algoritmos como TWAP e VWAP e ordens limitadas em vez de ordens a mercado em ativos ilíquidos — é controle direto do componente de impacto.
Quem opera no nível mais fino ainda precisa lembrar que o livro reage a fluxo informado em milissegundos. Ito & Yamada (2015, NBER WP 21122), analisando spillovers entre a Nasdaq e o forex em 2008–2009, documentaram que o fluxo de ordens dos high-frequency traders na Nasdaq carregava mais informação sobre as taxas de câmbio do que o próprio fluxo do forex — e liderava os movimentos. Traduzindo: na hora em que o seu sinal “vê” o movimento, parte da informação já está no preço, e você paga o spread informado.
Implicações para o backtest e para o robô
O spread é onde edges desaparecem entre o backtest e o real, e a evidência empírica é dura. O teste da StratProof — 22 estratégias populares de cripto rodadas em paper trading com taxas reais da Binance e spread de book L2 por 10 dias — terminou com 16 perdendo dinheiro, e a conclusão de que backtests sem custos reais subestimam o drag em mais de 50%. A síntese de execução estima, como ordem de grandeza, slippage de 1 a 2 pontos-base em ativos líquidos e 5 a 20 pontos-base em ilíquidos — antes de qualquer impacto de tamanho.
Para não cair nessa armadilha, o tratamento de custo no backtest precisa ser estrutural, não um número fixo:
- Use spreads bid/ask históricos reais por ativo e por hora — nunca a média do dia.
- Modele custo como spread efetivo, não meio spread cotado.
- Trate slippage como função do tamanho e do turnover, com impacto convexo, e não como custo fixo.
- Penalize giro alto de forma explícita: estratégias com muitas operações pagam o componente de seleção adversa repetidas vezes.
- Compare o impacto de mercado realizado contra o esperado no live e recalibre quando houver gap.
A regra de bolso é desconfiar de qualquer estratégia cujo Sharpe colapsa quando você dobra a premissa de custo. Se ela só vive com spread otimista, ela não vive.
Qual a diferença entre spread cotado e spread efetivo?
O spread cotado é simplesmente ask menos bid no topo do livro, enquanto o spread efetivo é duas vezes a distância entre o seu preço de execução real e o ponto médio no instante da ordem. O efetivo é quase sempre o número relevante para custo, porque captura ordens que andam no livro e a profundidade real disponível — o cotado é só o que a tela exibe.
Por que o spread mata mais estratégias de giro alto?
O spread mata estratégias de giro alto porque o custo é pago por operação, não por unidade de tempo: quem negocia 50 vezes ao dia paga o spread efetivo 50 vezes, e cada ida e volta inclui o componente de seleção adversa. Uma vantagem bruta de poucos pontos-base por trade some inteira quando multiplicada pelo número de operações, motivo pelo qual estratégias intradiárias precisam de edge muito maior por sinal.
O que é seleção adversa no spread?
Seleção adversa é o prêmio que o formador de mercado embute no spread porque sabe que parte do fluxo vem de traders mais informados que ele. Glosten & Milgrom (1985) mostraram que esse componente sozinho gera spread positivo mesmo sem nenhum custo operacional — é a razão pela qual você paga mais caro justamente quando opera em cima de informação ou de movimento já em andamento.
Como incluir o spread corretamente no backtest?
Inclua o spread usando dados bid/ask históricos reais por ativo e por hora, modele o custo como spread efetivo e trate o slippage como função convexa do tamanho da ordem. Custo fixo de meio spread cotado é otimista: a StratProof mostrou que ignorar custos reais subestima o drag em mais de 50%, suficiente para transformar uma estratégia perdedora em “vencedora” no papel.
Referências
- Glosten, L. R.; Milgrom, P. R. (1985). Bid, ask and transaction prices in a specialist market with heterogeneously informed traders. Journal of Financial Economics.
- Stoll, H. R. (1989). Inferring the components of the bid-ask spread: theory and empirical tests. Journal of Finance.
- Huang, R. D.; Stoll, H. R. (1997). The components of the bid-ask spread: a general approach. Review of Financial Studies.
- Derviz, A. (2002). Continuous time decision-making in a partially decentralized multiple dealership forex market, and the equilibrium exchange rate. SSRN 264588.
- Ito, T.; Yamada, M. (2015). High-frequency, algorithmic spillovers between Nasdaq and forex. NBER Working Paper No. 21122.
- Johnsen (2023). Best times for ETF investors to trade. Alpha Architect.
- StratProof. Paper trading 22 strategies with real fees. StratProof blog.
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